Friday, June 09, 2006

de Labrugia a Labruge




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Caro leitor:

Este trabalho não pretende, de forma alguma, obscurecer todos os existentes ou a surgirem no futuro. Trata-se de uma visão pessoal do autor suportada por várias recolhas em trabalhos escritos, relatos de pessoas idosas – memória viva e rica a não ignorar em qualquer trabalho do género – e em vários sítios da Internet.
Este trabalho pretende ser o mais verdadeiro possível e, por nunca haver tudo dito acerca de algo, encontra-se aberto a novas descobertas do nosso passado e a possíveis correcções, devidamente fundamentadas e que sirvam os propósitos deste trabalho o qual, como tudo, pode ser sempre melhorado, desde que haja empenho e curiosidade pelo que fomos para sabermos quem somos.
Passearemos através dos tempos, nem sempre cronologicamente sequencial, de acordo com a evolução dos acontecimentos e o seu encadeamento. Todos os factos históricos relatados estão directa ou indirectamente ligados à freguesia de Labruge e/ou ao concelho a que pertence ou pertenceu.
Labruge, há já muito merecia um registo assim. A memória de um povo não pode passar ao lado do conhecimento global. A história não se faz apenas de grandes feitos pese embora o facto destes surgirem suportados, não poucas vezes, por pequenos feitos como se de uma minúscula semente se trate e que depois de germinar resulta numa frondosa planta.
Neste trabalho iremos dar a conhecer o que se sabe sobre o castro de S. Paio, paragem obrigatória para quem nos visita, sobre os mártires S. Paio e S. Tiago, orago da paróquia de S. Tiago de Labruge e das festividades a Sto. Amaro.



















































A bandeira de Labruge:

Fundo amarelo: predominância da cor mais significativa da heráldica (vieiras);

Vieiras: alusão ao orago da freguesia – S. Tiago;

Espiga de trigo: a fertilidade da terra;

Ondas azul e verde: o mar a poente e o rio a sul;

Coroa mural com três torres: indica tratar-se de uma freguesia.

Localização de Labruge no Mundo
A pequena freguesia de Labruge tem a sua localização no globo terrestre, sensivelmente, nos 41º16’de Latitude Norte e 8º43’ Longitude Oeste.
No território nacional português dista cerca de 18 Kms a Norte da cidade do Porto e 11 a Sul da cidade de Vila do Conde – sede de concelho – junto ao oceano Atlântico, sendo a última freguesia a Sul deste concelho banhada pelo oceano.
Tem como vizinhos mais próximos as freguesias:
- Vila-Chã, a Norte;
- Modivas, a Este;
- Aveleda, a Sudeste
- Lavra, freguesia do concelho de Matosinhos, a Sul.

Área: 5,75 Km2
População: cerca de 3000 habitantes

A Junta de Freguesia, à data da elaboração deste trabalho, é liderada por José Manuel Diogo Salgueiro.






A paróquia de S. Tiago de Labruge tem por pastor o Padre José Domingues, natural da vizinha freguesia de Lavra mas que adoptou Labruge como sua terra natal.




Iremos começar este trabalho pelos povos que deram origem aos primeiros povoados no Norte da Península Ibérica, onde se localiza Labruge.

Migração dos povos colonizadores da Galécia
Na região entre o Havel e o Spree (actualmente a região de Berlim) existia uma confederação de tribos denominadas Suevos. Estes povos adoravam uma divindade comum, o deus Ziu. Deslocando-se lentamente para regiões mais meridionais, ocuparam sucessivamente a Saxónia, a Turíngia e a Baviera. No século I AC houve uma cisão da confederação, formando os seguintes grupos:

  • Hermúnduros

  • Marcomanos

  • Quados

  • Vangiones

  • Neméteros

  • Tribocos
Os Quados, instalados na Boémia e Morávia actuais, moveram-se para sul invadindo a península Ibérica, juntamente com alguns Marcomanos. Nestas vagas invasoras, foram acompanhados pelos Vândalos Silingos, pelos Vândalos Asdingos e pelos Alanos. Após devastações causadas durante cerca de dez anos aceitaram a proposta romana de um pacto de federação, ficando a península repartida entre eles.
Os Silingos ficaram na Bética, os Alanos na Lusitânia e na Cartaginense Ocidental e os Suevos e os Asdingos na Galécia e a Tarraconense conservou-se nas mãos do Império Romano.
As estimativas mais optimistas quanto ao número dos invasores suevos apontam para 30.000 pessoas. Estes implantaram-se preferencialmente nas zonas de Braga, Porto, Lugo e Astorga. Na região do Porto, segundo Idício, cronista cristão do séc. V, estabeleceram-se em duas povoações; Portucale Castrum (Gaia) e Portucale Locum (Porto).
Em 438 o rei Suevo Hernenarico ratifica a paz com os povos Galaicos e, cansado por uma vida de lutas, ele que já comandava os Suevos quando estes entraram na península Ibérica, abdicou em favor de seu filho Réquita.
Em 448 Réquita morre deixando um estado em expansão a seu filho Requiário que, sendo católico, vai impor este credo à população sueva. A população urbana da Galécia era já predominantemente católica. A cidade de Braga como capital do reino Suevo e sede episcopal ganha grande importância, a qual ainda hoje é visível no carácter metropolitano da sua Sé, primaz entre as dioceses do Noroeste peninsular.
Em 456 Requiário é morto e vários pretendentes aparecem, agrupados em duas facções. Nota-se uma divisão marcada pelo rio Minho, provavelmente um reflexo das duas tribos, Quados e Marcomanos, que constituíam a nação sueva na península.
Em 585 os Visigodos destroçam os seus adversários Suevos, capturando o rei Andeca. A Galécia passa a ser uma província Visigoda, mas provavelmente com um certo grau de autonomia.


Lusitanos? Nós do Minho e Douro Litoral?

Depois desta sucinta demonstração da migração destes povos, podemo-nos interrogar: “Somos, de facto, um povo descendente dos lusitanos?”. Com toda a segurança podemos dizer que somos descendentes dos Suevos e dos Asdingos, contrariamente à enraizada ideia de que a nossa ascendência é lusitana quando, como vimos acima, os Alanos quedaram-se pela zona montanhosa da Península Ibérica em especial na zona dos montes Hermínios, actual serra da Estrela que se estende Espanha adentro. Seria este povo que, por ocupar a Lusitânia, viria a ser conhecido por povo lusitano. Mas, como qualquer povo rebusca a sua história em busca de heróis que alimentem o seu ego e auto-estima nacional, foi aqui que encontrou o seu herói maior – Viriato – do qual desconhecemos o nome. Sabemos apenas que foi um chefe tribal que se opôs ao império romano e, aguerridamente, lhe fez frente sendo derrotado, segundo por força da traição de um dos seus guerreiros. O nome Viriato advém dos artefactos que ostentava nos braços – as virias – e que eram um símbolo do poder, reservado apenas aos chefes ou guerreiros que, de alguma forma, se destacavam. Daqui se pode compreender e justificar a grande afinidade existente entre os povos da Galiza e do Norte de Portugal que comungam da mesma ascendência.









     Pedras que contam histórias

          
Agora, após esta breve exposição acerca do fluxo migratório dos povos que ocuparam o território e sobre a dissertação da nossa ascendência, debrucemo-nos no trabalho de pesquisa sobre a cultura destes povos, elaborado pela Prof. Manuela Maria Rodrigues de Almeida e que foi apresentado e avaliado, aquando da sua licenciatura pela Universidade Aberta.

A Professora Manuela Maria Rodrigues de Almeida, nascida a 21 de Abril de 1959, na freguesia de Sto. Ildefonso, no Porto, bem cedo revelou a sua apetência pelo ensino aos mais pequeninos. Em 1976 termina o seu curso no Magistério, actual Escola Superior de Educação do Porto e inicia a sua actividade lectiva na freguesia de Valbom – Gondomar. Em 1977 concorre a um lugar existente na Escola nº2 da Lamosa em Labruge e, por força da excelente classificação obtida na sua formação, consegue ocupar o lugar, onde se mantém no activo desde então. Desde logo se afeiçoou a Labruge e às suas gentes, dedicando-lhe grande parte do seu tempo a fomentar e a fazer renascer as tradições e usos que, nos tempos que correm, são cada vez mais difícil manter vivas na memória das gerações actuais, seduzidas por outros interesses mais atractivos. No início da sua actividade lectiva em Labruge e em pareceria com a sua colega, a agora aposentada, Exma. Sra. Profª. D. Isaura, proporcionou ao povo de Labruge muitos dos mais belos espectáculos que alguma vez se fizeram em Labruge, integrados nas festas escolares a cada final de ano lectivo. Reconhecida por toda a comunidade como um pólo dinamizador da cultura local, continua hoje a ser solicitada para todos os eventos ligados à paróquia de S. Tiago de Labruge e a dinamizar as habituais festas de fim de ano lectivo, agora com a ajuda da Exma. Sra. Profª Celeste Miranda. Figura de proa na formação e representação do Grupo de Cantares Regionais de S. Tiago de Labruge, cujo ponto alto das suas actuações foi a ida ao programa Praça da Alegria na RTP1, que levou, pela 1ª vez, o nome desta freguesia aos quatro cantos do mundo, a criação da Escola de Música de Labruge e, mais recentemente, a Fanfarra de Percussão “Ruxaxá” Pelo exposto, é impossível dissociar a Sra. Profª Manuela da história da freguesia, daí esta resenha sobre a sua actividade em prol da comunidade em geral e das crianças em particular.


Estudiosa da cultura castreja no Noroeste de Portugal, percorreu os castros da cividade de Bagunte, citânias de Briteiros e de Sanfins e os castros de S. Lourenço e de S. Paio. Antes de iniciarmos a leitura do trabalho da Prof. Manuela, vejamos o que nos diz o sítio oficial de Labruge acerca do castro de S. Paio:

“O Castro de S. Paio é um pequeno povoado da Idade do Ferro existente no lugar da Mota, junto à praia dos Castros, na linha de costa do pequeno aglomerado de Moreiró, freguesia de Labruge, Vila do Conde. Foi encontrado para a comunidade científica pelo Arquitecto Fernando Lanhas, nas suas curiosas deambulações pela costa nos anos de 1959 tendo sido publicado na década seguinte pelo achador, em conjunto com o Bispo Arqueólogo D. Domingos de Pinho Brandão. O Castro foi desde então objecto de inúmeras acções de caça ao tesouro, tendo em 1991 sido finalmente protegido pela sua classificação no Plano Director Municipal como local de interesse arqueológico do tipo A, classificação que corresponde a uma reserva científica absoluta. Aí decorreram de 1993 a 1996 três campanhas de escavação que permitiram perceber um povoado naturalmente piscatório com casas-pátio, estendendo-se de um extremo ao outro do alto de S. Paio, com uma crono-estratigrafia que aponta para dois períodos de ocupação, sendo o mais recente atribuível ao final do século I a.C. A área envolvente ao Castro apresenta vestígios atribuíveis ao paleolítico e um conjunto de gravuras com um interesse notável, embora de cronologia desconhecida, onde incluímos um conjunto de penedos, ditos amoladoiros, por se acreditar que as marcas aí existentes correspondiam ao desgaste resultante do afiar de machados de pedra polida. Para o local está prevista a criação de um Centro Interpretativo e Museológico que explique e ajude a preservar a paisagem, a herança arqueológica, os dados geológicos – um Centro para um património integral.”
Depois desta visita superficial ao castro de S. Paio, atentemos no estudo pormenorizado da Profª Manuela sobre a cultura castreja, no qual se inclui o castro de S. Paio, que aqui se transcreve na íntegra, e que foi apresentado e defendido aquando a sua licenciatura em Ciência e Pedagogia pela Universidade Aberta:






A Cultura Castreja no Noroeste de Portugal

I. Introdução

     As particularidades que o Noroeste peninsular foi registando cumulativamente desde os tempos pré-históricos vão evidenciar-se com a emergência, a partir do final da idade do Bronze, de uma cultura original fundamentalmente caracterizada pelo seu tipo peculiar de habitat em povoados fortificados em posições elevadas vulgarmente conhecidos pelo nome de castros, donde deriva a sua designação tradicional de cultura castreja que, constituindo já um intenso foco de densidade humana, ocupa um lugar bem individualizado na Proto-história peninsular e é sem dúvida uma das manifestações mais significativas da personalidade desta vasta região. Esta zona geográfica, mais que uma finisterra foi eixo de denominação e pólo de interesses e atracção, tornando-se manifesto um quadro de relações de longo curso no âmbito de contactos atlânticos, mediterrânicos e continentais.

     A ocupação de muitos castros remonta indiscutivelmente ao Bronze Final, e a primeira fase da cultura castreja coincide com o último período do que até agora se tem chamado Bronze Atlântico. Segundo Armando Coelho Ferreira da Silva, na sua Dissertação de Doutoramento em Pré-História e Arqueologia apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto, a cultura castreja pode caracterizar-se por três fases, compreendidas entre o final da idade do Bronze e os primórdios da romanização:

     Fase I – séc. IX a.C.  (900-700/650 a.C.)
     Fase II – 500 a.C. a 200 a.C.
     Fase III – Apogeu e declínio no quadro da romanização (138-136 a.C., prolongando-se até à Segunda metade do séc. I d.C.).

     No desenvolvimento desta última fase, assiste-se a uma progressiva diluição de tanta originalidade no interior de uma aculturação programada pelo pragmatismo da civilização romana. Com a aceleração deste processo no âmbito providencial romano, fica registado, desde Augusto, o fim da Proto-História nesta região.

     Avançar com o estudo dos castros será contribuir para o esclarecimento da vincada personalidade que está na génese de uma cultura regional que nos diz particularmente respeito. É fundamental a identificação das nossas origens e a valorização de um património comum.




     










     
II. O Habitat Castrejo: ocupação e organização do espaço


     O habitat castrejo do noroeste peninsular tem como limites os rios Navia e Esla, a Oriente; o rio Vouga, a sul; e o Oceano Atlântico, a Norte e a Oeste. Esta área cobre o Norte de Portugal, a totalidade do território galego, a zona ocidental das Astúrias, e as regiões imediatas, a que parece corresponder genericamente uma província geográfica com características bem definidas por uma posição atlântica, vincados sistemas orográficos, uma densa rede hidrográfica e uma importante riqueza de recursos naturais.

     A uma escala macroscópica, esta cultura castreja do Noroeste peninsular é constituída por núcleos de povoamento indígena declaradamente defensivos (Na cultura castreja existiu uma grande fragmentação social e numerosas hostilidades entre os grupos) e com estruturas arquitectónicas predominantemente circulares, evidenciando desde cedo uma implantação intencionalmente perdurável numa verdadeira “civilização da pedra” quer nas zonas de granito, quer nas zonas de xisto, aproveitando adequadamente por toda a área as matérias-primas disponíveis.

II.1. Implantação dos povoados

     As características geográficas do Noroeste peninsular, num ambiente onde o relevo desempenha papel predominante, tornaram-se condição propícia ao assentamento de núcleos populacionais em posições elevadas, cuja implantação terá obedecido prioritariamente a critérios estratégicos de defesa, a denotar um período de profunda mudança económica e social claramente manifesta na construção de inúmeros povoados fortificados no intervalo de alguns séculos, podendo contabilizar-se, de momento, um número que se aproxima de um milhar para a generalidade do território do Norte de Portugal. É este o perfil da ocupação das comunidades indígenas pré-romanas do Norte de Portugal.

     Há uma variedade de topónimos associados a estações arqueologicamente confirmadas. Entre as designações tão diversas, elas são mais indiciadoras de povoados fortificados, nem sequer se confirma como um dado adquirido das possibilidades da utilização deste meio a correlação entre as designações de cividade, e seus derivados e corruptelas (Cividadelhe, Cidade (velha), Cidadelhe, Cidadelha/ Ciradelha, Cidadonha/ Cigadonha, Cigaduenha/ Cizonha, Suvidade, Cebidaia, Ceade/ Ceada, Citânia, Cividade da Citânia...), com povoados de maior amplitude face a castro, e seus derivados e afins (Castelo (Castêlo), Castelões, Crastro, Crastelo, Cristelo, Castrilhão, Castrilhões, Castrijão...) como identificando povoados de menores dimensões, tantas são as excepções que houve oportunidade de registar.

     Apesar de se tratar de uma cultura em que a condicionante altimétrica desempenha papel de particular relevo em consideração ao carácter defensivo dos povoados, a primeira observação geral sobre a sua localização é de que a sua implantação não se coloca na dependência da altitude. É evidente o registo de estações castrejas nas cotas mais diversas, desde pequenas elevações com algumas dezenas de metros a outras com mais de mil metros de altitude, sendo notória uma localização maioritária até 500m na região de Entre-Douro-e-Minho e superior a essa cota nas regiões que para Leste se estendem no vasto planalto transmontano. A mancha de cobertura apresenta maior densidade na zona litoral e peri-litoral, sendo significativa a percentagem de castros implantados em posição de baixa altitude, inferiores a 200m.

     Elementos decisivos terão sido sempre as condições naturais de defesa propiciadas por posições mais ou menos elevadas habitualmente relacionadas com linhas de água, que se tornavam solidariamente úteis para a defesa e a subsistência das comunidades.

     Outros factores terão, todavia, intervido para a optimização da escolha do habitat: meios favoráveis à prática de actividades agro-pecuárias e ao aproveitamento dos recursos marítimos e fluviais o que revela que a selecção de locais para o seu estabelecimento estava também inteiramente conexa com a economia de subsistência das comunidades.

II.2. Estruturação dos Povoados

     A construção artificial de diversos sistemas defensivos, de acordo com a morfologia do terreno e as possibilidades da população, utilizados isoladamente ou em combinações mais complexas, onde uma série de muralhas representa efectivamente o elemento fundamental da sua protecção, constituíram o sistema defensivo da cultura castreja. Presente em todos os castros, em número variável, conforme o grau de acessibilidade do sector e as dimensões do povoado, estão em geral dispostas concentricamente e são às vezes reforçadas com outras defesas complementares, como fossos e pedras fincadas.

     O castro foi um espaço do viver quotidiano, recinto murado com vários edifícios virados a um pátio normalmente lajeado, com seu redil de gado, seu recanto onde as cinzas dos mortos se enterravam. Há indícios sobretudo de pisos e lareiras, objectos metálicos, cerâmica manual e ainda mós de rebolo e numerosos peses de rede e tear e seixos afeiçoados, utensílios, armas e adornos de bronze. Há fixação no interior dos povoados fortificados de diversos trabalhos domésticos e artesanais com expressivo espólio de moagem (mós de rebolo), tecelagem (nem todos os seixos com entalhas laterais terão sido utilizados na actividade piscatória, podendo ser interpretados como pesos de tear), fundição e outros testemunhos (elementos constantes dos concheiros e a presença de sementes de fava, trigo, ervilha e bolota e a foice de talão, a comprovar uma actividade económica que inclui a recolecção, a caça, a pesca, a agricultura e a metalurgia.

     A cobertura das casas de planta circular de forma cónica era com materiais perecíveis, eventualmente de giesta ou colmo, sobre estrutura geralmente apoiada em poste central.

     As lareiras de planta circular, destacadas do piso, feitas de barro e incluindo fragmentos cerâmicos na sua textura eram colocadas em provável posição centrar, servindo para cozinha e/ou aquecimento.











III. Economia e Ergologia Castreja

III.1. Actividades de subsistência

Com formas económicas tidas por muito primitivas, a recolecção de frutos naturais assumia particular importância na subsistência dos povos castrejos. É Estrabão, autor clássico que na “Geografia de Estrabão sobre os povos do Norte da Península” concretamente o afirma quando diz que “os habitantes das montanhas vivem dois terços do ano de bolotas, que secam e trituram e depois moem para fazer pão, que conservam durante muito tempo”. Tal veracidade é comprovada por numerosos achados mas Estrabão terá limitado as suas observações a este elemento típico da economia pré-cerealífera por razões ideológicas.

Com efeito, observa-se em alguns castros a presença abundante de gramíneas, como o trigo, o milho-miúdo e a cevada, que supõem uma alimentação que incluía farinhas, cuja moagem aparece evidenciada pela existência de inúmeros moinhos manuais (mós de vaivém constituídas por um bloco plano sobre o qual se movia um rebolo, ambos de granito, segundo um modelo de tradição neolítica: mós rotativas constituídas por uma parte dormente, servindo de base, e outra giratória, que se sobrepunha, tendo a mó rotativa uma abertura central para introduzir o grão; “pios de piar os milhos”, no interior dos núcleos familiares).

O cultivo das favas e ervilhas está também testemunhado pelo achado das respectivas sementes, sendo também de assinalar a cultura do linho para a confecção de vestuário. O próprio Estrabão refere que a maior parte dos guerreiros usava saios de linho.

A inexistência de produção vinícola era suprida pela importação de vinho, que era feita em ânforas apropriadas, sendo, por isso, raro e reservado aos banquetes familiares e, sobretudo, compensada por uma bebida fermentada provavelmente obtida a partir de cevada ou outros cereais ou até de outro fruto.

São raros os instrumentos agrícolas pré-romanos até agora encontrados em castros. De matéria perecível, alguns deles, não sobreviveram. Deverá ser o caso dos arados, documentados literariamente. Outros, como enxadas, sachos e machados são de ferro, aparecendo normalmente em mau estado de conservação, muito oxidados. Até serem substituídos pelos novos instrumentos de ferro, continuariam a ser utilizados utensílios de bronze, designadamente machados e foicinhas.


Conforme os textos de vários autores antigos, o conjunto das actividades agrícolas era exercido pelas mulheres, que cultivavam as terras e com certeza também, acompanhadas das crianças e dos velhos, se encarregavam da recolha dos frutos naturais, enquanto os homens se dedicavam à guerra e ao roubo.

Neste contexto, a actividade agrícola desenvolvia-se de forma primitiva, sendo propriedades agrícolas sem dúvida reduzidas, com poucos e rudimentares instrumentos e culturas raras e insuficientes em relação à densidade da população.

Paralelamente às práticas recolectoras e agrícolas, a economia castreja apresenta uma singular dependência da actividade pecuária, em que a carne dos animais domésticos, o leite, outras gorduras e seus derivados aparecem como base da alimentação e como importante fonte de riqueza e as peles, como meio de intercâmbio a ser trocadas por cerâmica, sal, instrumentos e adornos, além de utilizadas no vestuário, no fabrico das armas (capacetes, polainas e escudos) e na construção de barcos (barcas de couro). A abundância da região em gado é particularmente mencionada pelas fontes clássicas, sendo as espécies mais citadas os porcos, as cabras e os cavalos, documentando-se também a presença de gado ovino e vacum.

No que respeita à caça, são praticamente nulas as referências clássicas e os dados arqueológicos também não são numerosos, fazendo supor um papel de menor importância.

A exploração dos recursos marinhos pelas comunidades do litoral e dos recursos fluviais pelas populações das margens dos rios, está bem documentada em achados desses castros com vestígios da recolha de marisco (lapa, mexilhão, ostra, caramujo, ouriço do mar) e actividade piscatória. A composição dos concheiros (vasos com asas para ir ao lume), denuncia um clima semelhante ao actual, de tipo temperado oceânico e manifesta uma recolecção em geral costeira que evitaria lugares de grande profundidade. São inúmeros os instrumentos líticos de tipologia e tecnologia tradicionais e utilizados na recolha de algumas espécies. Aparece bem testemunhada a actividade piscatória por numerosos pesos de rede feitos a partir de seixos com entalhes laterais.


III.2. Actividades artesanais

As actividades artesanais castrejas estão ligadas à cerâmica, à actividade têxtil, à metalurgia, ao trabalho da madeira, ao trabalho da cantaria e à ourivesaria. Tarefas com maior dureza como as que relacionam com a construção de edifícios e alguns trabalhos especializados como a actividade guerreira, a laboração dos metais e a olaria seriam realizados pelos homens. Por sua vez, a actividade têxtil e de confecção de vestuário representam mais um contributo de trabalho por parte do elemento feminino que era aliás, o sector mais permanente do povoado.

     A cerâmica castreja evidencia diversos conjuntos morfotipológicos, alguns bem caracterizados de utilização doméstica e também artesanal e religiosa, merecendo tratamento particular os padrões decorativos. Os elementos geométricos são típicos da gramática decorativa da cultura castreja do Noroeste. É também de referir a presença de siglas e marcas de oleiros. Actualmente ainda não foram conseguidos dados satisfatórios relativamente a algumas fases do processo de fabrico nomeadamente devido a falta de informações sobre estruturas de fornos ou outras instalações de cozedura. Sabe-se que, de entre as inovações técnicas a introdução da roda de oleiro é notória, técnica paralela ao uso das mós giratórias (meados do Séc. II a.C.)

     Do estudo da cerâmica destacam-se vários tipos: vasos pequenos para beber e outras funções (taças sem asas, com uma asa, com duas asas e vasos acampanados); vasos para actividade culinária (púcaros, panelas e potes sem asas, com uma asa e duas asas; vasos de suspensão; pratos; assadeiras; terrinas; caçoilas; queijeiras e coadores); vasos para armazenamento e transporte (dolia, cântaros, anforetas e bilhas); vasos especiais (dolia com decoração plástica; vasos de pé alto com decoração plástica; vasos geminados); vasos para artesanato metalúrgico (pequenos depósitos, cadinhos); lamparinas; testos; instrumentos relacionados com a técnica de fiação com fuso, vulgarmente conhecidos pelo nome de cossoiros. Alguns destes objectos, designadamente os de tamanho reduzido (pequenos discos com perfuração central) devem ter servido como botões aplicados no vestuário (apesar de serem normalmente de cerâmica conhecem-se bastantes exemplares castrejos de material lítico, sendo alguns deles decorados).

     No campo da metalurgia são numerosas as situações que permitem correlacionar o desenvolvimento da metalurgia do bronze, com o período de formação da cultura castreja do Noroeste. É expressiva a manifestação de uma metalurgia local do bronze final no interior de povoados castrejos do Noroeste peninsular designadamente machados, foicinhas, braceletes, pontas de lança, adornos e outros objectos. Só numa fase posterior aparece finalmente na cultura castreja a metalurgia do ferro, presente na generalidade das actividades domésticas, produtivas e guerreiras típicas das comunidades castrejas, continuando o bronze a gozar de preferência sobretudo em peças ornamentais com destaque para as fíbulas.

     O armamento da cultura castreja correspondente à idade do Bronze final, apresenta certa heterogeneidade de elementos, a maior parte de carácter ofensivo: punhais, pontas, lanças, cravos possivelmente de escudo e elementos de capacete. Mais tarde vamos encontrar, apesar das dificuldades de conservação do ferro, armamento defensivo incluindo espadas, punhais, pontas de lança e ponteiras ou chuços. Conjunto já bem significativo das armas defensivas castrejas é o constituido pelos capacetes de bronze. Por outro lado, são raros e por vezes de identificação problemática os vestígios de apliques, utilitários ou decorativos, de escudos que seriam de couro.

     De salientar que, no campo da metalurgia vamos encontrar objectos de adorno, como torques, braceletes e pendentes em bronze e contas metálicas de colar. De entre todos os objectos de adorno sobressaem as fíbulas, que constituem um dos conjuntos mais característicos da cultura castreja do Noroeste. Assinalam-se também alguns objectos culturais como os carros votivos e uma furcula em bronze.

     A intensa actividade de construção de habitações, muralhas e outros edifícios públicos em pedra, patentes nos inúmeros povoados castrejos, terá exigido uma generalizada especialização profissional sobretudo para algumas fases do processo construtivo de que, todavia, também poucos instrumentos são comprovação directa. Se não se pode testemunhar a extracção da pedra para construção por aproveitamento das fracturas naturais, inúmeras outras situações, partindo-a por intermédio de picos e cunhas aplicadas em cavidades alinhadas na superfície das rochas. De todo o trabalho de cantaria, desde a selecção, ajustamento e aperfeiçoamento das diversas pedras, que exigiam abundância de instrumentos adequados, como martelos, cinzéis e sobretudo picos, apenas se recolheu um exemplar completo deste tipo no Castro de Romariz.

     O trabalho da madeira deverá ter constituído também uma actividade de primordial importância nas comunidades castrejas, sendo utilizada como material de construção e fabrico de utensílios, conforme expressamente referido por Estrabão que diz que a maior parte dos recipientes domésticos eram feitos de madeira. Vários instrumentos correspondem a esta actividade, em particular machados, compassos, trados e lâminas de puas. Com efeito, os machados parecem ajustar-se bem ao abate de árvores e desbaste da madeira em relação directa, com o trabalho de lenhador e carpintaria. É também óbvia a necessidade de utilização de compassos no tratamento da madeira, sobretudo para traçar arcos e medir espaços, mas também noutras actividades artesanais, como a cantaria e a ourivesaria (sobretudo para traçar arcos e dividir espaços patentes em numerosos motivos da arte ornamental castreja).

     As várias dezenas de peças de ourivesaria, constando designadamente de torques, braceletes e arrecadas, são o melhor testemunho que a importância do trabalho do ouro terá desempenhado no contexto da cultura castreja, a que não terá sido estranha a riqueza aurífera da região. Este assunto mereceu dos autores gregos e latinos uma particular atenção nos seus testemunhos relativos ao Noroeste, especialmente por parte de Estrabão e sobretudo Plínio, realçando a abundância aurífera dos rios da vertente atlântica a Norte do Tejo, com menção concreta a esta característica a propósito dos rios Minho, Lima e Douro, do Norte de Portugal. Entre as técnicas utilizadas pelos castrejos destacam-se a da filigrana e a do granulado.

     Os torques, jóias estruturalmente simples, constando de um aro de perfil circular ou afim, e normalmente com remates típicos nos extremos, adequado ao contorno do pescoço, constituem sem dúvida o tipo de ornato pessoal mais significativo da ourivesaria castreja do Noroeste peninsular. Pelos testemunhos existentes, poderá concluir-se pelo seu uso exclusivamente masculino.

     Os colares articulados, adornos com antecedentes remotos em colares de conta de tipologia e matéria diversa, de origem animal ou mineral, são peças geralmente formadas por uma série numerosa de elementos, ora diversificados, ora repetidos, que eram ligados entre si por um fio simples, duplo ou triplo, que passava pelo interior e era em geral de matéria perecível. Estas jóias são habitualmente consideradas como adornos femininos do pescoço.

     As braceletes ou viriae, conforme designação transmitida por Plínio são menos numerosas que os torques, todavia a eles se reportando alguns pela morfologia, aspectos técnicos e decorativos e singularizando-se outros sobretudo pela sua construção em fita.

     As arrecadas, adornos que os dados iconográficos, designadamente estátuas de guerreiros, não sugerem como de uso masculino no âmbito da cultura castreja, distinguem-se das restantes jóias pela leveza da sua estrutura, delicadeza das formas e riqueza da sua decoração, constando geralmente de um corpo central decorado, às vezes enriquecido com um apêndice na parte inferior e dotado, na parte superior, de elementos de suspensão que podia ser simples por introdução no lóbulo da orelha, ou duplo, quando combinado a uma cadeia de suspensão supra-auricular. Notório é constatar quanto o seu uso ainda hoje está profundamente arraigado na tradição regional das mulheres do Noroeste.



IV. A Organização da Sociedade Castreja

     A organização social castreja estava baseada nos laços de sangue, que dava coesão aos diferentes grupos aparentados e aos diversos níveis em que se manifestavam. E, a informar todo o ordenamento aparente, um notório espírito de hierarquização geral.

     A unidade Doméstica encontra-se na base da sociedade. O carácter específico de cada construção, diferentes e complementares entre si pelas suas estruturas e espólio respectivo, sugere sem dúvida a atribuição de cada núcleo a uma só família, cuja complexidade de composição permanece todavia difícil de definir para além da afirmação genérica de que se deveria tratar de uma família extensa, constituída por várias famílias nucleares ligadas entre si genealogicamente e com residência comum. Talvez a este respeito se reporta o texto de Estrabão, referente às festas familiares, quando diz que os castrejos “bebem geralmente cerveja e raramente vinho, e o pouco que têm depressa o consomem em banquetes familiares... comem sentados em bancos construídos em redor dos muros, ocupando os lugares segundo a idade e a dignidade e fazendo circular a comida de mão em mão”, com expressão material nas casas circulares com bancos de pedra junto aos muros e lareira central aparecidos perfeitamente integrados em núcleos familiares de vários povoados castrejos.

     As casas redondas com bancos ao redor dos muros, com cerca de 5 metros de diâmetro, e de que se contam em algumas instâncias 20, 32 e cerca de 50 lugares sentados, poderão sugerirem estes números médias da constituição do agregado familiar, célula primária da sociedade castreja.

     Além da residência e da descendência, a família castreja teria também em comum a actividade económica, os direitos de propriedade e de sucessão e o exercício de actividades religiosas.

     Segundo as fontes, a mulher ocuparia um lugar fundamental na estrutura desta unidade. A prática da covada (segundo Estrabão “depois do parto fazem-se substituir pelos seus maridos e cuidam deles”), a transmissão da herança por linha feminina (também citando Estrabão “entre os Cântabros, são os homens que dotam as esposas e as filhas que são as herdeiras e escolhem as esposas para os seus irmãos”), a participação da mulher ao lado do homem na guerra e a sua intervenção indispensável na produção de alimentos, expressamente nos trabalhos agrícolas (“Elas cultivam a terra”), terão sido justificação suficiente para que Estrabão tenha falado numa certa “ginecocracia”, ou seja, um regime de matriarcado.

     De notar que esta expressão de matriarcado não deverá ser entendida como estádio em que o domínio e a autoridade seriam apanágio exclusivo das mulheres. Aliás, os modernos estudos etno-antropológicos vêm revelando que nas sociedades matrilineares, onde a descendência e a propriedade se definem em relação à linha feminina, como seria o caso, a autoridade política e o controlo económico (a nível de grupos) e até a autoridade doméstica (a nível de família) são normalmente exercidas pelos homens.

     As práticas funerárias de sepultura no interior da própria habitação em pequenas fossas de planta circular com paramentos de alvenaria e, posteriormente, em recinto próprio no exterior das casas mas dentro do núcleo familiar, se denunciam o lugar cada vez mais relevante que o agregado familiar foi progressivamente assumindo como unidade social no contexto das comunidades castrejas, são sobretudo a mais flagrante inovação da coesão dos laços de sangue que permanecem vivos e presentes para além da morte, em referência clara a um culto dos antepassados. As populações castrejas, como os outros povos pré-romanos do território português, praticavam o rito de incineração, depositando depois as cinzas dos seus mortos. E que tal tenha constituído a principal manifestação de religiosidade ao nível do culto doméstico é o que se poderá supor da existência de mesas sacrificiais como a encontrada em Romariz, com indícios claros de práticas litúrgicas que seriam com certeza oficiadas pelo paterfamílias agindo como sacerdote na qualidade de representante qualificado da comunidade de linhagem.

     É sabida a afirmação de Estrabão sobre o ateísmo dos povos do Norte da Península. Esta afirmação poderá ser interpretada em termos de tabu (ateísmo = religião “bárbara”) ou porventura significando ausência de representações iconográficas das suas divindades.

     Com efeito os dados recolhidos manifestam um vasto panteão com relações mais estreitas às unidades étnicas e de organização social, aos seus diversos níveis, de que se destacam alguns aspectos relacionados com a guerra e alguns outros sobre o seu carácter astral, naturalista, com divinização do Sol e da Lua, das águas, fontes, rios, montes, rochedos e outros seres e forças da natureza. O maior número das mais de trezentas expressões teonímicas indígenas conhecidas na zona indo-europeia da Península diz respeito ao Noroeste peninsular, incluindo a área da cultura castreja propriamente dita. A maioria dos teónimos aparece referida apenas uma vez, com isso se observando bem o carácter local dos cultos.

     Poder-se-á também falar de formas típicas de um teísmo pastoril, na imolação dos animais que criavam, como bodes e cavalos, segundo referências estrabonianas, e outros (suínos, ovinos e taurinos), que nos são documentados pela iconografia e epigrafia, sublinhando-se a expressão suprema desta forma de sacrifício, por referência a uma sociedade guerreira.

     Apesar de ignorados em absoluto pelos autores clássicos, são numerosos os antropónimos indígenas desta região que nos foram legados por via da epigrafia latina e cuja sobrevivência nos permite conhecer a existência de um sistema de nomes de pessoas que poderá ser percebido como prova de uma consciência de linhagem, em que a escolha do nome próprio seria com certeza reflectidamente realizada entre os antropónimos já pertencentes à família segundo costume habitual nas sociedades antigas. Fica a impressão de que o “nome” e o “renome” estavam indissoluvelmente ligados entre os castrejos do mesmo modo que na generalidade das comunidades por uma certa hierarquia, que pretendia sublinhar, naturalmente pela onomástica, conceitos que fossem expressões de funções e sobretudo de virtudes típicas, como a coragem e a celebridade, de uma sociedade guerreira. São antropónimos originais desta área “Ladronus” com significado de “guerrilheiro” em clara evocação de táctica bélica e da importância do latrocínio entre os povos castrejos; “Camalus”, “Coronerus” e “Caturo” que se podem remeter a etimologias de significado análogo, respectivamente “Kem-“, “Koro-“ e “Kat-“, denericamente traduzindo a ideia de “guerra” ou “luta” nos dialectos célticos, “Corocaudius/ Corocudius”, como “chefe militar”, sinónimo de “Coronerus” com o mesmo radical mais o complemento derivado do céltico “ner”, com idêntico significado de “senhor” ou “chefe” como “audius/ udius”; “Arquius/ Arcius/ Arco”, “Viriatus/ Viriatis”; “Dovius” e afins que derivam dos étimos “Arc-“, “vir-“ e “dovi-“, designando o primeiro a ideia de “poder” e os outros de “força”, “virilidade”; “Albinus” e “Malceinus” de “alb/ alp-“ e “mal-“ que exprimem genericamente as noções de “altura” e “montanha” em perfeita sintonia com o ambiente geográfico do habitat castrejo.

     Finalizando, a organização da sociedade castreja teria uma primeira unidade suprafamiliar com funções específicas, pois a união de vários grupos familiares organizados, descendentes do mesmo antepassado comum formava o castro, o “castellum”. Aliás é esta interpretação inovadora que Armando Coelho Ferreira da Silva, na sua dissertação de doutoramento, dá ao signo. Os “Castella” (castros) gozavam de autonomia relativamente ao “populus” de que faziam parte. Assim, a um segundo nível da organização suprafamiliar, dominando um vasto território com vários castros, estavam os “populi” (povoa) ou “civitates” (cividades), cuja onomástica as fontes literárias, epigráficas e toponímicas nos deram a conhecer na sua maior parte para a área castreja portuguesa. Nesses povoados vamos encontrar os “Calaicos” ou “Galaicos” e os “Lusitanos”.






     
V. A Cultura Castreja na Região de Vila do Conde. Os Calaicos

     O nome de Calaicos (ou Galaicos), é objecto de uma forte discussão entre os académicos. Quando a primeira invasão militar romana avança de Sul para Norte, ao passar o rio Douro, encontra Cale, um castro situado na passagem tradicional do rio, no local onde hoje se encontra o centro da cidade do Porto. Seguida a invasão para Norte, o general romano pára no rio Minho, regressando então a Roma onde celebra um Triunfo- festa de homenagem pública aos generais vencedores- e onde toma o cognome de Calaico. De ora em diante toda esta região passa a ser conhecida por Calécia. Colocam-se então duas hipóteses: ou os Calaicos tomam esse em consequência da classificação dada pelos romanos, sem que a tivessem antes, ou já a tinham mas por não corresponder a uma realidade política mas sim cultural, não a utilizavam usualmente.

     Os escritores da antiguidade referem-se aos galaicos como um povo de pastores rudes, dirigidos por concelhos de anciães. Vestiam-se com lã escura, atando os longos cabelos quando combatiam e dedicavam-se ao latrocínio. As suas mulheres, pelo contrário, vestiam cores garridas e trabalhavam arduamente.

     Apiano refere a existência de 5000 galaicos nos combates travados ao lado dos lusitanos contra os romanos. Sabemos que o seu valor em combate era elevado.

     Em Vila do Conde, a cultura castreja encontra-se representada por um raro conjunto de povoados, caracterizados por uma forte heterogeneidade, possuindo exemplares que vão do grande Castro de Amplitude, com urbanismo definido, um sistema defensivo complexo, e com zonas de habitat extra-muralhas, como é a Cividade de Bagunte, até à pequena aldeia marítima com um sistema defensivo simples de muralha, talvez em talude de terra, e provavelmente com fosso, possuindo não mais do que uma dúzia de casas e utilizando o alcandorado de uma penedia em cima do mar para conseguir uma base de fixação segura e economicamente capaz de sustentar a sua pequena população, caso do Castro de S. Paio, em Labruge.

























Como é:

     
Como foi:
























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      O Castro de S. Paio pela Escola nº2 de Labruge

















Reprodução do castro de S. Paio na escola
Nº 2 de Labruge
         

Por tudo o que foi exposto, podemos afiançar que Labruge teve a sua origem no lugar de Moreiró ou villa Moreirola, nome romano para esta povoação. Contudo não podemos descurar o facto de que, de acordo com a toponímia de alguns campos de cultivo como o Campo das Antas, Agra de Sub Antas ou Leira das Mamoas, a ocupação humana se possa situar muito aquém da civilização castreja, embora nada tenhamos que nos garanta que assim tenha sido.

Na área do S. Paio associam-se elementos de interesse geomorfológico e arqueológico, com uma grande beleza cénica e um certo carácter selvagem, fruto de uma sábia utilização ao longo dos séculos por actividades agrícolas tradicionais.
       A origem do nome da freguesia de Labruge encontra-se, ainda hoje, pouco esclarecida. Existem várias opiniões acerca da sua etimologia mas, após algumas investigações, posso concluir que a sua origem etimológica se encontra visível e acessível a todos nós, todos os dias. O ribeiro a que chamamos rio Onda ou Donda, nasce na freguesia de Guilhabreu e o seu caudal engrossado pelas águas de dois pequenos ribeiros: ribeira de Penas e ribeira de Lagielas – não é senão o rio de Labrugia que em latim, convém não esquecer de que sofremos uma aculturação romana, significa loureiro. Do topónimo latinizado Labrugia, de origem incerta, que deu no português antigo labruge, 'loureiro'. Tem a variante Labruja e os derivados Labrujeira e Labrujó.
Terá em algum momento da sua história havido alguma árvore de loureiro nas suas margens, que tenha emprestado o nome ao rio e este à freguesia. Uma outra possibilidade teria sido a junção de arrugio, cujo significado é regato, e do topónimo Lavra, nome da freguesia vizinha, a resultar no topónimo Labruge? Pessoalmente não acredito nesta possibilidade por várias razões, entre as quais:
1ª - Embora fosse possível e aceitável esta junção, arrugio é um termo não usual no Norte de Portugal;
2ª - É frequente a conotação de algumas terras com algo que nelas acontece ou existe como se pode comprovar em muitas outras localidades – Castelo da Maia, Leça do Bailio que distingue de Leça da Palmeira e por aí adiante.
3ª - Existem várias localidades distribuídas pelo território nacional que não têm por vizinha outra localidade com o nome de Lavra e que se chamam Labruje, Labruja ou outro nome da mesma origem etimológica.

Aquando da fundação de Portugal, Labruge fazia parte das Terras da Maia – assim chamada esta região que se estendia do Sul do Rio Ave até Bouças - Matosinhos na actualidade – que foi conquistada aos mouros por Mendo Gonçalves, que por força deste feito se tornou senhor destas terras. Casado com D. Leônguida Soares, tiveram dois filhos, Gonçalo Mendes da Maia e Soeiro Mendes da Maia. Gonçalo Mendes da Maia, figura relevante na fundação de Portugal, lutou e granjeou vitórias, ao lado de D. Afonso Henriques, contra os mouros, vindo a falecer aos 95 anos em Beja durante uma das muitas lides que teve durante a sua longa vida e que lhe valeu o cognome de Lidador. Como podemos constatar só após a posse das terras da Maia, este apelido passou a fazer parte do nome dos descendentes de Mendo Gonçalves. Provavelmente Mendo Gonçalves e descendentes seriam conhecidos como “…… da Maia”, para melhor identificação por quem os não conhecesse. Labruge fez parte de Terras da Maia até 1836, ano em que passou para o concelho de Vila do Conde. Mais tarde, 24/10/1855, com a divisão territorial, Labruge passou a pertencer ao recém-criado concelho de Bouças até 18 de Outubro de 1871, altura em que passa a integrar o concelho de Vila do Conde, sendo a última freguesia adstrita a este concelho.

O facto mais antigo que se conhece da freguesia de Labruge remonta ao ano de 1059 e que diz respeito a um testamento feito a favor do mosteiro de Moreira da Maia e através do qual este mosteiro herdaria uma propriedade de Labruge. Todas as notícias que chegaram aos nossos dias são referentes a vendas e doações de terrenos. Alguns desses registos encontram-se na Torre do Tombo, em Lisboa. Interessa saber que os mosteiros de Sto. Tirso, Moreira da Maia, Leça do Bailio e de Vairão tinham interesses em Labruge e em outras freguesias vizinhas, muitos deles obtidos por doações.
D. Maria Pais Ribeiro foi a primeira filha de D. Urraca Nunes. Diz-se que era "branca de pele, de fulvos cabelos, bonita, sedutora" e que enfeitiçou o D. Sancho e cativou os nobres da sua corte". Era de tal forma bonita que foi raptada e levada para França por um nobre mais afoito que dela se enamorou.
Nos finais do sec. XII e princípios do sec. XIII (1209) D. Sancho I, 2º rei de Portugal, deu a D. Maria Pais Ribeiro – “A Ribeirinha” – e seus herdeiros as terras de Vila do Conde. Esta senhora, dotada de grande beleza e cativadora de grandes paixões por muitos dos nobres de então, foi amante de D. Sancho I de quem teve quatro filhos – dois rapazes e duas raparigas: " Um filho houve nome Dom Gil Sanches, e foi chus honrado clérigo que houve na Espanha, e houve por barregam dona Maria Garcia; e outro filho houve o nome dom Rodrigo Sanches que nom foi casado nem houve filhos; e uma filha houve nome dona Constança Sanches, que foi professora em Santa Cruz de Coimbra e nom houve filhos; outra filha houve nome Teresa Sanches e foi casada com Dom Afonso Teles e houve filhos: Dom João Afonso e Dom Martim Afonso e dona Maria Afonso que foi abadessa de Gradefades".
     
     Existem, contudo, historiadores que referem a descendência de D. Sancho I e de D. Maria Pais Ribeiro como sendo de seis filhos: Rodrigo Sanches (1200-1246), Gil Sanches (1200-1236), Nuno Sanches, Maior Sanches, Teresa Sanches (1205-1230), Constança Sanches (1210-1269)


Como não nos podemos abster da história do nosso concelho, abaixo, e de acordo com o estudo do Exmo. Sr. Professor de História Dr. Carmo Reis, se resume a história de Vila do Conde:

“A história de Vila do Conde começa propriamente ao longo do séc. VIII a.C., no monte sobranceiro ao rio Ave, com povoamento do castro por uma comunidade celta. Era gente que se dedicava ao pastoreio, à criação de gado e à pescaria.

Depois do século III a. C., é o início da colonização romana. A população desloca-se para as terras baixas à volta do monte. É então que esta área se constitui em vila, ou seja, grande propriedade de um qualquer senhor de Roma aqui  residente, ou  algum senhor natural, rico e romanizado.
Entre os séc. V  e VI da nossa era, chegam os Suevos e cresce a comunidade dos cristãos à volta de uma pequena igreja dedicada  a  S. João Apóstolo, no alto do Monte. Vêm    também   os  Árabes   e  a Reconquista   Cristã  (a  partir  do   século VIII)   passa por aqui. O conde que dá o nome à povoação terá sido Vímara Peres, o  senhor de Guimarães e do Porto,  cidades com as quais Vila do Conde forma o triângulo estratégico de defesa e consolidação do litoral portucalense. Neste  período de  inseguranças,   a  senhora   da  Vila,   de nome  Flámula,    faz doação   da   terra   ao mosteiro  de  Guimarães  (século X).   A terra era de camponeses e pescadores do rio e do mar, a viver entre dois pólos: a igreja de S. João no Monte e a ermida de S. Julião, na foz do rio (século XI).
Quando chega o século XIII, a Vila era uma terra reguenga, na sua maior parte. O rei D. Sancho faz doação dela à Dona Maria Pais Ribeiro, sua amante. Vila do Conde é, agora, um senhorio feudal com gente serva que pagava tributos em géneros e serviços à senhora Ribeirinha e seus descendentes.
No decurso dos séculos XIII e XIV, Vila do Conde ganha a sua primeira configuração urbana. Vai construir-se o Mosteiro por ordem de D. Afonso Sanches, marido de D. Teresa Martins. Em oposição a este centro de vida feudal, cresce um núcleo urbano de burgueses mercadores que enriquecem no comércio da Flandres, e de entre si sai uma Vereação que, na Praça Velha, assume um governo de autarquia. Vigora ainda a feudalidade dos tributos de tudo o que se produz ou vende, até da passagem da barca que atravessa o rio. Mas a evolução económica está a determinar progressivamente a mudança.
Os séculos XV e XVI são tempos de glória. Vila do Conde ganha uma dimensão nacional pela sua intervenção na gesta dos Descobrimentos oceânicos, com a produção de seus estaleiros (caravelas e naus) e com o saber de seus navegantes. É terra-mãe de marinheiros que acompanham Vasco da Gama à Índia, de Gaspar Manuel, piloto-mor da carreira das Índias, da China e do Japão, de Frei João que foi companheiro e amigo de S.Francisco Xavier no Oriente. É significativo que D.João II tenha fundado a alfândega e esse facto tenha sido determinante na independência da comunidade burguesa em face do Mosteiro. Vila do Conde torna-se um município, recebe o foral do rei D.Manuel I e, pouco depois, passa a ser um senhorio da Casa de Bragança. Embora tenha uma autonomia controlada, a sua Autarquia exerce doravante uma administração própria. A Igreja Matriz, a Casa da Câmara, o Pelourinho, a Misericórdia, as casas manuelinas e outras obras da constelação urbana que agora se levantam, mostram a cidade a crescer em prosperidade e no sentido do Mar.
No século XVII, a estrutura urbana dilata e, resistindo à crise da época, vai consolidando. O comércio externo faz-se, não só para o Norte da Europa, mas também para o Brasil. É o tempo em que se erguem a Capela do Socorro, o Hospital, o Castelo de S.João Baptista, a igreja do Carmo e outras edificações de vulto.Mais importante é o século XVIII com as suas casas palacianas, a obra extensa do Aqueduto e a mole gigante do convento de Santa Clara. O alargamento do espaço urbano é o grande acontecimento:Vila do Conde cresce para Norte, com o povoamento de Poça da Barca, Areia, Regufe, Portas Fronhas e Casal do Monte; cresce para Sul, com a construção do cais por enrocamento, fazendo o aterro do Sub-mosteiro, domesticando o rio. É neste tempo que se levanta a ponte de pedra a ligar as duas margens, acabando para sempre com a barca da passagem.
O século XIX é a época da grande revolução. Começa verdadeiramente a história da autarquia contemporânea, com a instituição da liberdade constitucional. Vila do Conde ganha um concelho de múltiplas freguesias, consolidando-se como um grande município, acima e abaixo do Ave. Ruas e avenidas novas rebentam os limites tradicionais: pelo meio da Vila, passa a  Estrada Real, avenida D. Luís I; para Ocidente, abrem-se as ruas de Bento de Freitas e Eduardo Coelho que, ao fundo, recebem transversalmente a avenida Júlio Graça; para Leste, a estação de caminho de ferro e a fábrica da Companhia do Rio Ave; para Norte, começa o povoamento das Caxinas; para Sul, montam-se duas pontes metálicas, rodoviária e ferroviária, de ligação ao Porto.
O século XX continua esta explosão urbana: no desenvolvimento económico, no aperfeiçoamento dos transportes, no aparelho de serviços públicos; no progresso da Cultura e da Educação (o Ensino privado no Grande Colégio de S.José e o Ensino Secundário com a inauguração da Escola Técnica, em 1970), e também no progresso do Desporto (as provas de Ciclismo e a fundação do Rio Ave Futebol Clube, no Campo da Avenida). O que era o movimento urbano de Vila do Conde entre os Anos 30 e os Anos 60, media-se principalmente pelo comércio da Rua das Hortas (Avenida Campos Henriques e, hoje, José Régio), e da Praça da República, com lojas de ferragens, fazendas e louças, cafés, confeitarias, restaurantes, mercearia, relojoarias, ourivesaria, garagens, fotografia, barbearia, pastelaria, consultórios médicos, tudo para o negócio e trabalho, à mistura com repartições públicas. Vila do Conde era, então, o centro urbano e o seu concelho rural em interacção permanente, visível nas feiras semanais de Sexta-Feira, e, de modo espectacular na festa de S. João e na celebração do Corpo de Deus, com procissão solene e tapetes de flores juncando sumptuosamente ruas e calçadas do velho burgo.”
Dr. Carmo Reis (Professor de História)
Também no sítio da internet sobre Vila do Conde se pode ler o seguinte resumo:
“Existem já referências de uma comunidade existente neste sítio (Vila do Conde - cidade) em 953 com  o nome de <<vila de Comite>> (ignora-se quem era esse conde). Em documentos de 1059, 1078, 1080 e 1011 tambem se fala desta povoação, mas apelidando-a de "S. João de Foze". Em 1078 fala-se das suas salinas, devendo também ser já muito activaa faina da pesca. Em 1209, D. Sancho I doou  Vila do Conde a título hereditário à sua famosa amante D. Maria Pais Ribeiro (a Ribeirinha), o que confirmou D. Afonso II em 1217. A tetraneta da Ribeirinha D. Teresa Martins (filha de D. Afonso de Albuquerque, 1º Conde de Barcelos) e seu marido, D. Afonso Sanches (bastardo de D. Dinis), fundaram por carta de 7 de Maio de 1318 o convento de St. Clara, dotando-o de grande número de casas, terras, foros e padroados. Ainda no séc XVI o convento recebia a dízima das mercadorias que entravam pelo Rio Ave, sabendo-se que até esta data (séc XVI) navios de grande arqueação podiam ancorar nos portos de Vila do Conde e Azurara. D. Manuel concedeu-lhe foral novo a 10 de Setembro de 1516 e contribui para a edificação da nova igreja matriz. A ponte sobre o rio Ave começada a construir a 15 de Agosto de 1793, veio a ser destruída por uma cheia em 11 de Janeiro de 1821; reconstruída nesse mesmo ano, seria destruída em 1893 e reedificada novamente nesse mesmo ano.  O castelo foi mandado construir pelo 7 º Duque de Bragança e erguido de 1602 a 1614, tendo sido consertado em 1642 por ordem de D. João IV.”


Lenda sobre a origem do rio Ave e da Serra da Cabreira

Em tempos remotos houve um conde que, vivendo à beira-mar, um dia partiu para uma caçada rumo à serra.

Enquanto caçava ficou fascinado pela imagem deslumbrante de uma bela pastora que guardava um rebanho.
     Depressa se enamoraram e na despedida do Conde a pastora disse que gostaria de ser ave para poder ir visitá-lo sempre que quisesse. Como tal não era possível, a pastora chorou tanto, tanto que as suas lágrimas formaram uma nascente, que correu até à terra situada à beira-mar onde vivia o seu Conde.
O rio obteria assim o nome do animal em que a bela pastora se transfiguraria para chegar ao seu amado conde e a serra o nome de Cabreira por o rebanho que a bela menina levava a pastar ser de cabras.
De regresso a Labruge e ao seu passado recente na área das telecomunicações, é importante dizer que em 1934 o telefone chega a Labruge. A par das grandes centrais telefónicas nas principais cidades, o meio rural assiste ao desenvolvimento da rede telefónica. Foi assim que, em 1934, o progresso chega à área de Vilar do Pinheiro, sendo dotada das centrais de Labruge, Soutelo e Malta, respectivamente com 3, 4 e 7 assinantes. Três anos mais tarde é inaugurada a central magnética de Vilar do Pinheiro com capacidade para 30 assinantes. Antevendo-se o aumento notável da rede telefónica, em 1974 os assinantes são aglutinados na nova Central Manual de Bateria Central de Vilar (actual Museu), cuja capacidade total passou a ser de 1300 linhas de rede. Porém, nove anos depois, com a inauguração da central automática contígua, a central manual de Vilar foi desactivada. E como se tratava do último exemplar dotado com esta tecnologia na região do Porto, impôs-se a sua preservação física e do seu espólio, ficando a constituir até aos dias de hoje o núcleo museológico que se designa por «Museu Vivo da Comutação Manual».
O Museu Vivo da Comutação Manual localiza-se em Vilar, a vinte quilómetros do Porto. É um espaço que a Portugal Telecom mantém aberto ao público desde 1983, no âmbito do Ano Internacional das Telecomunicações. O Museu recria o período de implantação do telefone no país até ao advento da comutação automática. Neste ambiente assaz peculiar e único do género na Europa, introduz-se uma dimensão pedagógica inovadora. Se no museu tradicional os objectos estão expostos em vitrinas ou armários, sem se poder tocar ou ver o seu funcionamento, no museu vivo o público irá conhecê-lo plenamente.
Labruge tem apenas uma rua em cuja toponímia figura uma figura pública de Labruge: Avenida Manuel Diogo. Esta avenida – mais conhecida por Rua da Igreja – tem o seu início na Rua de Labruge e termina na Praceta de S. Tiago e homenageia o responsável pelo estruturamento o e arruamentos de Labruge e quem trouxe a electricidade para a freguesia. Avô do actual presidente da junta foi, também ele, presidente de junta e vereador na Câmara Municipal de Vila do Conde. Foi em 1969/70 que esta figura proeminente de Labruge teve direito a que o seu nome figurasse numa artéria desta freguesia. Todas as outras artérias de Labruge têm nomes relacionados com o lugar onde se inserem ou porque eram conhecidas e foram atribuídos no 1º mandato do actual presidente de junta a fim de organizar devidamente os arruamentos da freguesia, tal era a confusão que reinava nos endereços postais.
Em Labruge, a economia era, essencialmente, agrícola apesar da sua proximidade ao mar, havendo então, assim como agora, grandes casas de lavoura uni familiares, às quais é possível, com alguma precisão, saber a data da sua criação, bastando para o efeito observar as ombreiras graníticas das portas, onde, por norma, se inscrevia o ano de construção. Exemplo destas casas de lavoura, entre muitas outras, encontramos a casa do Roxo, a do Gaspar, e a do Belchior que, a não serem as mais antigas, serão certamente algumas das maiores e mais antigas casas de lavoura da freguesia. Com o avançar dos tempos e a criação de pólos industriais nas localidades vizinhas, começou a haver uma deslocação de mão-de-obra para essas novas actividades económicas, por haver uma remuneração mais compensatória e o trabalho não ser tão árduo, bem como beneficiarem de regalias sociais que até então não tinham. Um horário laboral definido pelo relógio e não pelas estações do ano também deve ser tido em conta nas razões destas deslocações. Labruge foi um pólo acolhedor de muita gente à procura de trabalho nas casas de lavoura, onde à jorna e à custa de muito esforço venceram as dificuldades, vivendo hoje com comodidades que, provavelmente, naqueles tempos difíceis julgaram nunca poderem vir a conseguir. A maioria destas pessoas é oriunda do concelho de Barcelos.
A fauna em Labruge é muito variada e rica. Nos seus pinhais abundam o coelho, o esquilo, o ouriço caixeiro, o mocho, a coruja das torres, o corvo, o rouxinol, o melro, o estorninho, a rola, o pombo, o pisco, repteis, sapos e a difícil de encontrar, pelos seus hábitos nocturnos, raposa, o pato e o maçarico no estuário do rio Onda. Também há relativamente pouco tempo era possível encontrar e pescar no rio Onda a enguia e outros peixes. Hoje em dia no seu estuário, sazonalmente, pescadores furtivos apanham a “loura”, enguia bebé, que é vendida para Espanha onde adquire valores elevados na ordem dos 150€/Kg.
O mar de Labruge sempre foi rico em peixe – robalo, sargo, serrão, margota ou maragota, larote ou lurio, polvo, ouriço-do-mar, navalheira, santola, etc. – mas hoje e por se encontrar exactamente entre dois centros piscatórios – Vila-Chã e Angeiras – e porque estes, muitas vezes, não respeitam as normas existentes para a captura do pescado, recorrendo a técnicas ilegais como o bater dos remos e à colocação de redes e cobos ou côvados muito junto à costa, não respeitando os limites da linha de água, afastam o peixe para águas mais profundas não o deixando entrar para a desova, verificando-se hoje uma escassez muito grande daquelas espécies. Também há relatos, não confirmados, do rebentamento de petardos no mar de S. Paio, que mata ou atordoa todo o peixe que de imediato começa a boiar à superfície sendo então recolhido. Estas técnicas ilegais não são boas para ninguém, em particular para os profissionais da pesca, uma vez que o peixe não se reproduz nas condições mais favoráveis ou pura simplesmente procura outras águas para desovarem.
Até princípios da década de 80 do século passado, o mar era também fonte de rendimento para as famílias com menores recursos que, aproveitando a baixa-mar ou seca, como por aqui lhe chamam, munidos de ganhuços ou ganha-pão se confundiam com as rochas a descoberto pela maré e lhes roubavam o “botelho”, preciosidade do grupo das algas, que armazenavam num velho barracão existente a Sul da praia e que, depois de seco, vendiam para a indústria farmacêutica e de cosmética. A apanha do Botelho era feita principalmente por mulheres que, juntando a parte da frente da saia com a parte de trás, entre as pernas, davam um nó formando uma espécie de calções. Estas mulheres, na sua maioria, não sabiam nadar mas assim mesmo e impulsionadas pela necessidade, afoitamente se metiam ao mar com a água pelo pescoço e logo a seguir estavam “empoleiradas” nos cabeços a encherem o ganha-pão. Também o sargaço que dava à praia em grandes quantidades, era apanhado e estendido, formando autênticos tapetes ocupando grandes extensões do areal e que, depois de seco, era vendido aos agricultores para fertilizarem as suas terras e viam neste adubo natural e de excelente qualidade uma forma económica de obterem os melhores rendimentos das suas produções. O “Socialista”, assim chamado por ter sempre hasteada, num mastro improvisado em sua casa, uma bandeira do PS, falecido em 2004 foi a última pessoa que, com a ajuda de um velho burro, fazia a apanha do sargaço. Também a extracção de areia na praia de Moreiró, em meados do século passado, era um recurso para a economia local, sendo esta carregada à cabeça, em gigas, que passavam de cabeça em cabeça, para as carretas ou camionetas que a transportariam para as obras, seu destino final. Esta extracção de areia era feita mais ou menos junto à linha de água conforme se quisesse areia mais ou menos grossa. Duas mulheres enchiam as gigas e ajudavam a carregar à cabeça de uma terceira que seguidamente a passava para uma quarta e assim sucessivamente até chegar ao carro. Tempos difíceis esses em que tudo o que fosse passível de se tornar em rendimento era aproveitado.
Hoje, por força da escassez de mão-de-obra e por existirem indústrias alternativas à lavoura tradicional, as grandes casas de lavoura remodelaram as suas actividades, transformando-as em explorações de produção de leite, convertendo os seus campos para a produção de milho e erva para forragem, principal fonte de alimentação do gado leiteiro e alternativa às rações industriais.
Na agricultura, ainda se encontra bem implantado o cultivo de campos de grelos que são vendidos, na maior parte dos casos, ainda em fase de germinação que, depois de colhidos e acondicionados em molhos por mulheres que trabalham à jorna, obtendo assim à custa de muito esforço e sacrifício um complemento financeiro para a economia doméstica, entram no mercado de distribuição ou são vendidos directamente nos mercados das cidades vizinhas.
Com a diversificação e a necessidade de suprir algumas carências na freguesia, surgiram algumas vertentes económicas alternativas como as indústrias metalo-mecânica, gráfica e carpintaria ou marcenaria e as actividades desportivas, culturais e sociais, sendo de destacar o grande empreendimento em fase de conclusão que é o Centro Social e Paroquial de Labruge, a nova sede da Junta de Freguesia e o novo Complexo Desportivo de Labruge.
O centro social é fruto do querer de toda uma população, fruto este saído da semente que germinava na pessoa do Exmo. Sr. Padre José Domingues. Foi este senhor o mentor desta obra e aquele que, para o melhor e para o pior, arca com a responsabilidade de levar a bom porto este empreendimento, recorrendo à solidariedade e espírito de sacrifício da população que sempre se manteve a seu lado neste propósito. Este moderno centro social suportará um centro de dia para que os mais idosos não permaneçam na solidão das suas casas e os mais novos possam continuar a sua labuta, sabendo que os seus progenitores se encontram bem entregues e acompanhados, partilhando assim com os seus contemporâneos as memórias de tempos idos. O apoio domiciliário aos idosos que não se possam deslocar ao centro também se enquadra nas actividades previstas deste centro, bem como as salas de catequese e um salão paroquial que muita falta faz às actividades que pululam nesta freguesia e que esmorecem por falta de condições. Foi com o Padre José Domingues que a Igreja Paroquial recuperou a sua traça original, com especial relevo para a abertura do arco de S. Tiago, reforma de todo o interior da igreja que apresentava sinais evidentes de degradação, do actual salão paroquial e requalificação do espaço envolvente à igreja, onde se construiu uma capela mortuária que havia muito era uma aspiração das gentes de Labruge que, assim, usufruem de um espaço adequado aos velórios dos que se vão finando. Grande parte dos custos destas obras foi suportada pelo próprio Sr. Padre em manifesta demonstração de desapego pelos bens materiais. Também apreciador das artes, facilitou o espaço da paróquia para as actividades culturais que surgiam, apoiou sempre o desporto local e incentivou a criação de grupos de jovens, contribuindo assim para um mais são desenvolvimento dos jovens aderentes a estes grupos. Sempre atento aos problemas da freguesia, não se inibe de deixar bem claras as suas posições favoráveis ou não, procurando sempre um consenso para as várias solicitações a que está sujeito. Pessoa muito estimada pelos seus paroquianos e reconhecida por todos os labrugenses que, mesmo sem serem seus paroquianos, o procuram em busca de conselho ou auxílio.
Também na área social foi inaugurado a 3 de Junho de 2006, um centro residencial para a 3ª idade, de administração particular, que contou com a presença das autoridades civis e religiosas do Concelho de Vila do Conde e da Freguesia de Labruge. Trata-se de um belo edifício que reúne excelentes condições para acolher e cuidar daqueles que, já sem participação activa para o rendimento económico do país, encontram neste espaço outras pessoas com quem partilhar e recordar todas as suas lembranças e, também, alguém que lhes dê atenção e o carinho merecidos.
A nova sede da Junta de Freguesia é fruto da partilha de esforços entre a Junta de Freguesia e a C. M. Vila do Conde, então presididas pelos Srs. José Manuel Diogo Salgueiro e Engº Mário de Almeida, respectivamente, e é o reflexo do progresso e evolução demográfica de que a freguesia tem beneficiado, particularmente na urbanização dos vastos terrenos costeiros, ao que o limitado e exíguo espaço da velha sede da Junta, outrora Casa dos Pescadores – embora Labruge nunca tenha sido uma aldeia piscatória, havia no lugar de Calvelhe algumas famílias dependentes desta actividade e que operavam no Lugar de Angeiras da vizinha freguesia de Lavra, justificando, assim, a existência desta estrutura social – só com muito esforço e dedicação dos elementos que a compõem conseguem superar as dificuldades e os novos desafios próprios do crescimento demográfico que tem sofrido na última década. A freguesia de Labruge dispõe de um autocarro novo, muito solicitado pela logística dos movimentos associativos e, maioritariamente, pelo transporte escolar, sendo de realçar esta disponibilidade por parte da edilidade que sempre garantiu este precioso apoio nas várias deslocações daqueles movimentos associativos. A sua inauguração foi a 2 de Outubro de 2005 com a presença de todas as autoridades civis e religiosas da freguesia.
O novo complexo desportivo, cuja inauguração foi a 11 de Setembro de 2005 com a presença das autoridades civis e religiosas, supra referidas, e animada pela fanfarra de percussão “Ruxáxa”, vem substituir as velhas instalações desportivas e é a consequência de aturadas negociações entre a Junta de Freguesia e um empresário de imobiliário que, através de permutas de terrenos, resultou na construção deste magnifico empreendimento desportivo composto por um pavilhão gimnodesportivo e um campo de futebol capaz de satisfazer as necessidades da freguesia no desporto amador. Saliente-se que Labruge foi a primeira e única freguesia do concelho de Vila do Conde, durante muito tempo, a dispor de um pavilhão gimnodesportivo próprio. O encontro inaugural foi com a equipa de Águas Santas e acabou com o resultado de 1-1.
Nesta obra emblemática, como em muitas outras, se aplica o velho e sempre actual rifão:
“Cada amo tem seu moço e cada moço tem seu cão. O amo dá pão ao moço e o moço dá pão ao cão”
Quem não entender a mensagem desta máxima, passe um dia por Labruge e questione os mais antigos e certamente obterá a resposta

Labruge cresce uniformemente em todas as vertentes sociais, sendo disso exemplo estas obras e as consequentes criações de linhas de água canalizada, sistemas de saneamento básico, abertura de novos arruamentos ou melhoramento dos existentes e a criação de duas estações elevatórias de águas residuais, uma em Moreiró e outra em Calvelhe junto ao Rio Onda. Na área do ambiente, Labruge tem-se revelado como a freguesia com o maior índice de acção e progresso no concelho de Vila do Conde, confirmado pelas estruturas montadas na praia para protecção e sustentação das dunas, montagem de passadiços para a protecção destas e, em Moreiró, para protecção de um caminho milenar que ligaria a villa Moreirola às povoações a Sul. Para que tanto se tenha feito e se venha a fazer, de acordo com alguns projectos já aflorados pelo presidente da junta, é necessário ter no comando dos seus destinos gente capaz e atenta às necessidades sociais da população.
Labruge tem o seu padroeiro em S. Tiago Maior, porque como veremos a seguir também existe o S. Tiago Menor e que, tal como o Maior, também este foi martirizado. Não há qualquer referência aos motivos que levaram Labruge a ter como oráculo S. Tiago mas, como se pode ver no caminho do Noroeste, Labruge faz parte do itinerário de quem pretende fazer a peregrinação do Litoral Sul até S. Tiago de Compostela desde a idade média (Séc.X), sendo que então se chamava Sanctus Jacobus de Lavrugia. Talvez por ser atravessada por todos os que seguiam o caminho de Santiago, passou a ser referenciada como hoje é conhecida: Paróquia de S. Tiago de Labruge.
Para melhor se entender o que acima se disse sobre a religiosidade da freguesia de Labruge, nada como deixar aqui a história e as lendas que envolvem S. Tiago Maior e de S. Tiago Menor, primos de Jesus Cristo.
História     
     O nome de “São Tiago”:
“Santiago” é a expressão actual em língua castelhana (Espanha). Antigamente dizia-se:
“San’ Iago”, “San Jacob” ou “Sanctus Iacobus”.
“Iago” é a derivação do nome grego com o qual o nomeavam no Novo Testamento:
“Iacobos”. Por sua vez, este nome grego deriva do hebraico “Iacob”, como o patriarca Jacob.
- O filho de Zebedeu (Mc 3, 17); o filho de Alfeo (Mc 3, 18); São Tiago menor (Mc 15, 40).
Em português diz-se São Tiago. A tradição denominou o de “o Maior” para o distinguir de São Tiago Menor, contemporâneo de Jesus e figura também proveniente da primitiva Igreja de Jerusalém.
Em Santiago de Compostela encontra-se o túmulo de São Tiago, o Maior, filho de Zebedeu.
Entorno familiar:
São Tiago, o Maior, era filho de Zebedeu (Mc 1, 19) e de Salomé (Mt 27, 56) e tinha como irmãos João, também apóstolo (Mc 1, 19-20; 3, 17).
Não há registos sobre Zebedeu para além da sua mencionada paternidade. De sua mãe Salomé, sabemos que era uma das mulheres que seguiu Jesus desde a Galileia e que se encontrava ao pé da Cruz (Mc 15, 40). Era, possivelmente, irmã de Maria, mãe de Jesus.
São Tiago e a sua família eram originários de Yafia, transladados para Betsaida e habitavam nas cercanias de Cafarnaúm. Possuíam uma empresa familiar dedicada ao negócio da pesca nas margens do lago de Generaset. A esta empresa familiar estavam associados outros dois irmãos: Pedro e André (Lc 5, 3-11). Ocasionalmente contavam com a ajuda de empregados (Mc 1, 20).
Deste pequeno círculo de pescadores, Jesus levou os seus quatro primeiros discípulos: Pedro e o irmão André, Tiago e o irmão João. Salomé, mãe de Tiago e João segue-os.
Abandona tudo e segue Jesus:
Estes dois pares de irmãos, sócios e amigos, seguiram a chamada de Jesus “de imediato” (Mc 1, 16- 20). Quando empenhados no seu trabalho “sentiram a chamada de Jesus” (Mt 4, 21), abandonaram o negócio familiar (em frente do qual continuará Zebedeu e os jornaleiros) e empreenderam a “aventura do mestre da Galileia”.
Acompanharam Jesus durante os três anos da sua vida pública.
O grupo dos doze:
De entre todos os discípulos que o seguiram, Jesus instituiu num grupo de doze: era uma acção simbólica e profética; era o anúncio e a realização básica do novo Israel, representando a antiga estrutura das doze tribos (Mt 19, 28).
A tradição conservou quatro listas com o nome de doze apóstolos: Mt 10, 2-4; Mt 3, 16-19; Lc 6, 13-16; Actos 1, 13. O apóstolo Pedro preside a todas estas listas. São Tiago, o Maior, ocupa o segundo lugar depois de Pedro em Marcos e o terceiro lugar nas restantes listas. Isto indica o papel relevante do apóstolo no grupo dos doze. Mas para além de ser uma peça chave no grupo dos Apóstolos, São Tiago pertencia a um grupo mais reduzido: o grupo dos íntimos de Jesus.
O grupo íntimo de Jesus:
Jesus teve uma relação muito especial com Pedro, Tiago e João. Eram o seu grupo de confiança. Frequentemente Jesus toma este grupo e leva-os “à parte” em momentos chave, em que eles seriam testemunhas excepcionais e exclusivas tais como.
- A ressurreição da filha de Jairo;
- A transfiguração do Tabor;
- A agonia no horto de Getsémani. 
Em outras ocasiões, a este trio de confiança juntava-se André (irmão de Pedro). Encontramos estes dois pares de irmãos em vários episódios:
- São os primeiros a serem chamados;
- Acompanham Jesus na jornada de Cafarnaúm, a casa de Pedro;
- Interessam-se especialmente pelos projectos de Jesus, e, concreto, pela ruína de Jerusalém (Mc 13, 3-4).
Carácter de São Tiago:
O papel destacado de São Tiago deve-se, sem dúvida, ao facto de pertencer ao grupo mais antigo dos que seguiam Jesus. Mas seguramente, têm também muito a ver com o carácter e as atitudes de São Tiago.
Nos textos do Novo Testamento encontramos dados suficientes que mostram uma personalidade apaixonada, arriscada, ambiciosa e decidida. Tiago aparece como uma pessoa apaixonada, capaz de pôr tudo em jogo; como uma pessoa que é capaz de arrastar os demais e que não pára para medir consequências.
São Tiago mudou as suas expectativas e converteu-se ao projecto de Jesus:
Este carácter especial, ademais de ser uma característica pessoal, deve ser realçado sobre o fundo comum das expectativas messiânicas daquele grupo da galileia. São Tiago e o seu irmão João, assim como outros membros do grupo de Jesus, entendiam, no principio, o caminho de Jesus até Jerusalém como o momento propício para instaurar o tão ansiado Reino de David: um reino com dimensão basicamente social, politica e económica; Um reino que reivindicasse a autonomia de Israel e entrasse num processo revolucionário contra todo poder estrangeiro e contra toda a imposição que não fosse a exigida nas cláusulas da Aliança.
Está claro que a expectativa dos irmãos tinha um ponto de vista equivocado porque Jesus não pensava num Reino em chave sócio-politica, nem sócio-revolucionaria. São Tiago teve que abandonar a sua perspectiva e compreender que o projecto de Jesus não era o de triunfar senão servir. Por isso, é admirável a capacidade de seguimento destes homens no meio da incompreensão, dos equívocos, das expectativas falidas e da incómoda postura de estar, continuamente, a descobrir caminhos imprevistos e arriscados, o que os converte em monumentos de fé.

Últimos anos de vida:
Depois da morte de Jesus, por volta do ano 30, temos pouca informação sobre a vida e actividade de São Tiago. Encontramo-lo expressamente citado nos relatos sobre as experiências de encontro com o Senhor Ressuscitado e, supõe-se, que estaria presente no encontro da Páscoa com os onze, onde se dá a verdadeira mudança de expectativas e de compreensão definitiva do projecto de Jesus.
São Tiago faz parte do grupo básico da Igreja primitiva de Jerusalém, com o grupo dos doze e, deduz-se, que deverá ter sido uma figura importante pelo facto de que Agripa I o escolheu, com Pedro, como figuras representativas para escarnecer desta primitiva comunidade eclesial.
São Tiago morre decapitado com uma espada por ordem de Herodes Agripa no ano 44. Foi o primeiro apóstolo a verter o seu sangue por Jesus. Conta uma lenda, cuja origem vem do tempo de Clemente de Alexandria, que a morte de São Tiago deu-se pela denúncia de um traidor, que ao escutar a firme profissão de fé de São Tiago, se arrepende e é também ele condenado, acompanhando São Tiago a caminho do local do martírio, ao mesmo tempo que lhe pedia perdão.

Lenda
Jesus tinha-lhes dito: “Sereis minhas testemunhas, em Jerusalém, em toda a Judeia, em Samaria e até ao fim da Terra (Act. 1, 8). Tinha, pois, que anunciar ao mundo o Evangelho. Onde lhe tocaria ir a S. Tiago? Desde a morte de Jesus até à data do seu martírio, passaram uns 10 ou 12 anos...
Tudo o mais que se conta acerca deste apóstolo pertence ao domínio da lenda. Tradições escritas dos primeiros séculos e narrações orais de muitos lugares da Galiza e Espanha falam das suas pregações. Pode resumir-se assim: Tiago, filho de Zebedeu, depois de pregar na Judeia e na Samaria, encaminhou-se para a Hispânia, evangelizando desde a Andaluzia até à remota e céltica Galiza. As lendas peninsulares acrescentam que o apóstolo, durante a sua estada na Hispânia, foi favorecido com uma aparição da Virgem Maria, então ainda viva, a pedir que lhe edificasse um templo: tal seria a origem do templo do Pilar. Dizem ainda que recrutou aqui alguns discípulos que o acompanharam até Jerusalém. Vendo que pouco aproveitava aqui a sua pregação, voltou para a Judeia onde converteu Fileto, discípulo de um Mago chamado Hermógenes, e por fim também este. Os Judeus, furiosos com estas conversões, dirigiram-se-lhe em tom insultuoso; muitos, porém, vieram a converter-se com a sua pregação e milagres. O sumo-sacerdote Abiatar levou então o povo a apoderar-se do apóstolo e a levá-lo a Herodes Agripa, que lhe mandou cortar a cabeça.
Foi o primeiro mártir de entre os apóstolos. Sucedeu isto em 25 de Março, mas a Igreja fixou-lhe a festa em 25 de Julho, data em que seu corpo foi trasladado para a Galiza.
O Papa Leão XIII, na Encíclica Deus Omnipotens, publicada em 1884, confirma a autenticidade das relíquias «depois de ter sido morto em Jerusalém, o corpo foi recolhido pelos seus discípulos Atanasio e Teodoro, os quais embarcaram com o Santo Corpo desembarcando nas costas de Espanha, correspondentes a região de Amaia, onde reinava D. Lupe; esta rainha era idólatra e muito pérfida; no entanto, os discípulos puderam-se livrar das maquinações com que ela os perseguiu  à sua chegada e movimentação, e penetrando no interior da região, deram sepultura ao Santo Corpo numa pequena colina, construindo um hipogeu e uma pequena igreja. Os discípulos permaneceram em sua custódia até que, à sua morte, foram enterrados ao lado do apóstolo, pelos naturais do país, que converteram ao cristianismo».
A lenda conta que, guiados por um anjo, os discípulos navegaram, numa barca de pedra, até a costa da Galiza, subindo depois o rio Ulla até Iria Flavia (hoje, Padron), o porto romano mais importante da zona, para depois enterrar o santo corpo na floresta vizinha, “Liberum Donum”, e edificar um altar sobre uma arca de mármore.
Passaram-se séculos, durante os quais – por causa das perseguições e proibição de visitar o lugar, devida sem dúvida, à perseguição dos imperadores romanos contra o cristianismo – o túmulo cai no esquecimento. No início do século VIII, os árabes e muçulmanos invadiram a península ibérica, conquistando-a quase toda em nome de Alá e, ameaçando toda a Europa: naquela época pareciam imparáveis. A sua força é a unidade. Enquanto isto, os reinos cristãos do Norte da Espanha, ainda não invadidos (protegidos pela natureza hostil do território), pensavam mais em guerrear-se entre eles do que combater de forma organizada o inimigo comum.
No meio desta realidade geopolitica confusa, por volta do ano 813, na remota e esquecida Gaellecia (Galiza), o eremita e pastor Pelayo, começa a ver todas as noites, sobre o monte Librádon, misteriosas luzes sobre um túmulo de um campo (daqui parece derivar o nome de Santiago de Compostela, Campus Stellae). Em sonhos, o Apóstolo S. Tiago aparece-lhe e convida-o a escavar para que o seu sepulcro volte a luz. Pelayo corre a informar Teodomiro, bispo de Iria Flavia, que dá ordem de escavar; durante os trabalhos é encontrada uma arca de mármore dentro da qual se encontram os restos de um homem decapitado. Grita-se: “milagre”. E anuncia-se a descoberta do túmulo de S. Tiago. Afonso II, o Casto, rei de Asturias e de Galiza, informa o Papa Leão III, Carlos Magno e outras personagens importantes da época, da descoberta, e faz edificar uma primeira igreja sobre o sepulcro, à volta do qual se desenvolve um pequeno burgo, para o qual transladou a sede episcopal de Iria. É a alvorada de Santiago de Compostela, a terceira cidade santa da cristandade, depois de Jerusalém e de Roma. E inicia-se a peregrinação que de toda a Europa cristã transporta cada vez mais numerosas multidões à tumba do Apóstolo.
Estas lendas são todas muito tardias: a da pregação na Hispânia não é anterior ao séc. VIII; a da translação para a Galiza desenvolveu-se por fins do primeiro quartel do séc. IX. O culto local do apóstolo, junto do túmulo que lhe foi atribuído, já estava estabelecido cerca do ano de 850. Na antiga liturgia hispânica, a festa celebrava-se a 30 de Dezembro.

Resumindo:
Era pescador, filho de Zebedeu e de Salomé, irmão mais velho do evangelista João. Estava com o irmão nas margens do lago Genesaré, quando Jesus os chamou. Foi o primeiro evangelizador da Espanha. Para revigorar esta tradição, no século IX o bispo Teodomiro de Iria afirmou ter reencontrado as relíquias do apóstolo e desde aquela época, a cidade de Iria, que tomou o nome de Santiago de Compostela, tornou-se a meta preferida de todos os peregrinos da Europa. Parece que foi primo consanguíneo de Cristo...
Celebra-se a sua festa no dia 25 de Julho e a Igreja é toda enfeitada a rigor e os andores engalanados de flores.
Como já se falou no S. Tiago Menor, aqui fica, também, o que se conhece deste santo mártir.
Martírio de S. Tiago, o Menor. Perseguição dos cristãos na Palestina.
Tiago (lat. Iacobus, denominado o Menor;? - ? 62) é uma figura em que, após o Concílio de Trento, é identificado em quatro personagens citados no Novo Testamento: apóstolo Tiago, filho de Alfeu (Mc 3,18; Mt 10,3; Lc 6,15; At 1,13); Tiago, "irmão", isto é, filho de Cleofas e primo de Jesus (Mc 6,3; Mt 10,2); Tiago, chefe da Igreja de Jerusalém (At 12,17; 21,18); por fim, Tiago, a quem apareceu o Senhor ressuscitado (1Cor 15,7) e que, de acordo com Hegesipo e Clemente de Alexandria, teria sido lapidado por ordem do sacerdote Anás.
São Tiago, que o evangelista Marcos chamou de "o Menor" para o distinguir de Tiago, irmão de João, entra em cena como bispo de Jerusalém, após o martírio de Tiago, o Maior, no ano de 42, e após o afastamento de Pedro de Jerusalém. A sua imagem austera sobressai pela Epístola que dirigiu, como uma encíclica, a todas as comunidades cristãs. Lêem-se aí fortes expressões que a distância de dezanove séculos não fez perder sua perene actualidade. Sobre sua morte, há poucas informações. Entre as mais consideráveis, aquelas do historiador hebreu José Flávio, segundo o qual o apóstolo teria sido condenado ao apedrejamento no ano 61 ou 62.
Celebra-se sua festa no dia 3 de Maio.
Sobre a Igreja de Labruge, sabemos que o registo mais antigo encontrado sobre esta diz respeito ao ano de 1258 e que pertencia ao Mosteiro de Moreira. Em 1320, ano em que foi feita uma lotação de todas as igrejas e mosteiros, com o fim de lançar sobre elas uma décima para financiamento da guerra contra os mouros, a igreja de Louriga foi taxada, de acordo com os arquivos existentes na Torre do Tombo, em 30 libras que corresponderiam a 1$550. A Igreja da Paróquia de S. Tiago de Labruge, tal como a conhecemos hoje, tem como data do início da sua construção o ano de 1711. Foi a 21 de Abril deste ano que Domingos Gonçalves Canário, do lugar de Moreiró, foi contratado para fazer o edifício da igreja pela importância de 255$000, sendo obrigado a aproveitar a pedra de esquadria da velha igreja e a que faltasse para a nova esquadria teria que ser do Monte de Santo António de Vairão e a restante pedra necessária seria do Monte Carvalho. Esta nova igreja teria que ser mais larga, em relação à anterior, em três palmos para cada lado, totalizando 28 palmos de largura. A Sul do passal encontra-se um cruzeiro datado de 1753 ao qual não se conseguiu atribuir nenhum facto digno de registo que assim o justificasse. No princípio do séc. XIX procedeu-se à construção da torre sineira que, segundo consta, foi erigida apenas por um pedreiro e suas duas filhas. Os sinos foram encomendados e adquiridos em Braga entre 1871 e 1875 pelo que, se atendermos à data do cruzeiro a Norte do passal, se pode considerar o ano de 1875 como sendo o ano em que a torre foi provida deles. Em 1922 a igreja, o cemitério e o adro sofreram alterações de relevo das quais se destacam a construção de um anexo para recolha das promessas e de um salão paroquial no primeiro andar, alargamento do adro e reforma do cemitério com gradeamento e portões novos.
A última intervenção sofrida foi já com o Sr. Padre Zé Domingues em que foi devolvido à igreja o arco de S. Tiago, na base da torre sineira, e que se encontrava fechado por anteriores intervenções, ampliação do salão paroquial, criação da praceta de S. Tiago, embelezamento do adro da igreja com calçada portuguesa e todo o seu interior foi renovado e recuperado, procurando manter a traça original.
Apesar de todo este desenvolvimento da história do orago de Labruge, saliente-se o facto de que a maior festa realizada nesta paróquia não é a de S. Tiago mas sim a de Sto. Amaro, discípulo de S. Bento e advogado das maleitas dos ossos e da barriga, visitado por milhares de fiéis que aqui se dirigem em Março a cumprirem as suas promessas.
Também o lugar de Moreiró, por ser o berço desta freguesia, é merecedor de ter um santo protector. Este santo não poderia deixar de ser senão também um mártir. Santo terno e de história, assaz de tal forma curta e violenta, que faz estremecer de compaixão o coração mais empedernido de quem ouve o exemplo e tenacidade na afirmação e confirmação da fé em Jesus Cristo que, apesar dos seus doze anos, sofreu o martírio da morte por decapitação e o seu frágil corpo de menino esquartejado. Foi durante a ocupação dos mouros – séc. X – que o rei emir de Córdova Abderramão III cobiçou as demais províncias cristãs de Espanha. Para que tal empresa fosse possível, cerca do ano 920, recorreu à ajuda dos mouros de África. Com estes constituiu um poderoso exército que, entrando por Castela, facilmente conquistou a Galiza. Saquearam o reino conquistado e fizeram prisioneiros entre os quais Hermígio, bispo de Tuy e tio de Pelágio, que levaram para as masmorras de Córdova. Como este bispo era bem relacionado na cidade de Córdova e nela possuía amigos, providenciou para que fosse negociado o seu resgate, oferecendo aos mouros a quantia que quisessem em troca da sua liberdade. Como penhor da sua palavra deixou Pelágio, menino muito bonito e formoso que, rapidamente, despertou os apetites mais lascivos e ignóbeis do rei Abderramão, mandando este chamar à sua presença aquele menino. Propôs de tudo e tudo ofereceu a Pelágio para que este sucumbisse aos seus prazeres mas, agarrado à fé inabalável em Jesus Cristo e à doutrina que, no cárcere, recebeu das cartas de S. Paulo e do seu trabalho apostólico, recusou e defendeu-se dos assaltos impetuosos do lascivo soberano com a seguinte resposta: “Para que saibas, tudo o que me ofereces é efémero e morre à minha morte contudo, sendo eu cristão, todos os bens que receber do meu Senhor Jesus Cristo, que adoro e idolatro como verdadeiro Deus, serão eternos e perdurarão para sempre comigo, mesmo quando à Sua presença for chamado!” O rei Abderramão ainda tentou tocar-lhe no rosto mas foi repelido e alertado para que não o confundisse com os criados efeminados que pululavam pela corte. Não gostou da resposta e entregou-o a lobos esfaimados dos mesmos desejos que os seus para que estes o seduzissem. Não o conseguiram e Abderramão que não vislumbrava maneira de conseguir os seus intentos, e num acesso de fúria, chamou alguns dos seus soldados mais ferozes e incapazes de conhecerem a compaixão ordenando-lhes para que, com tenazes de ferro, levantassem o menino ao ar e o deixassem cair tantas vezes quantas as necessárias até que ele renunciasse à fé em Jesus Cristo ou, em alternativa, morresse neste suplício. Pelágio, levantando as mãos aos céus e a Deus, pedia forças para suportar este martírio sem vacilar na sua fé e logo aqueles monstros lhas cortaram com o sabre. Foi o princípio da flagelação pois que logo de seguida lhe cortaram os braços, os pés, as pernas e, por fim, a cabeça. Este corpo frágil de menino, retalhado por bestas insensíveis e cegas às ordens de maior besta, foi lançado ao rio Guadalquivir. Todo este macabro martírio decorreu no dia 26 de Junho de 925, Domingo, das onze e meia da manhã até às duas da tarde e Pelágio tinha treze anos.

Reza a lenda que uma imagem deste mártir deu às praias de Moreiró, supostamente a mesma que ainda hoje se pode ver na capela com o nome do mártir, e as gentes de Moreiró trouxeram a imagem para a igreja de Labruge. Ora o santo mártir não gostou de ter sido levado para esta igreja e regressou ao mesmo local onde tinha sido encontrado.
Perante o ocorrido só uma conclusão se poderia retirar desta manifestação do santo: o seu lugar era em Moreiró e em mais lugar algum.
     Pelágio era o nome deste mártir que com o decorrer do tempo foi sofrendo mutações fonéticas e, consequentemente, gráficas passando a Pelaio, Plaio e por último Paio.
O povo de Moreiró ergueu no espaço, outrora ocupado pelo castro, uma pequena ermida um pouco maior que as edificações tipo “alminhas” e que já em 1623 era referenciada por D. Rodrigo da Cunha no seu Catálogo dos Bispos do Porto. Posteriormente, em 1885, no mesmo local, surgiria outra edificação maior. No ano de 1964, por intersecção do Pároco António Andrade, foi constituída uma comissão de festas com o objectivo de angariar fundos para que o S. Paio tivesse uma festa condigna. Foi a 16 de Agosto, Domingo, desse mesmo ano que, excepcionalmente, se realizou a romaria que viria a ser a maior de sempre feita em honra deste santo, com toda a pompa e circunstância, não faltando a banda dos Bombeiros Voluntários de Vila do Conde, muito povo e um magnífico fogo de artifício que, diz quem o viu, nunca houve outro igual.
Depois e de acordo com as histórias dos mais velhos, esta capela viria a desmoronar-se quando um rapaz, que andava aos ninhos, subiu ao telhado e fez com que caísse. O povo de Moreiró reergueu a capela, de forma mais segura em meados do séc. XX (década de 70), ampliando-a e adornando-a com pedras e pedregulhos extraídos directamente da praia de Moreiró. A sua inauguração foi a 1 de Julho de 1973.
Existiu, por Sul da capela de S. Paio, uma edificação de vigilância que servia para alertar as populações da aproximação de qualquer inimigo por mar. Situava-se na elevada formação rochosa, onde hoje tem o marco geodésico, privilegiado posto de atalaia pela sua altitude, ao qual se chamava facho, razão porque hoje esta elevação tem o mesmo nome. Quando necessário eram lançados aos céus fogachos se de noite ou sinais de fumaça quando de dia. Acredito que, em tempo de paz, pudesse este posto de atalaia servir também para alertar as embarcações que navegassem junto à costa dos baixios rochosos muito abundantes no mar de Labruge.
As festividades em honra de S. Paio celebram-se no 1º Domingo do mês de Julho. Até há relativamente pouco tempo, após a criação de uma comissão de festas a pedido do pároco Andrade, antecessor do Padre José Domingues, estas festividades revestiam-se de uma grandiosidade tal que chamava a si muita gente da freguesia e das vizinhas, após o que se encerrava durante o restante período do ano.
Refira-se que esta capela jamais teve um crucifixo, ícone comum e indispensável em qualquer edificação cristã, e em 2005 o Pároco José Domingues presenteou a gente de Moreiró com um belo crucifixo a suas expensas. A história não termina aqui. A ”Ti Elisa do Canário”, fervorosa devota e zeladora da capela de S. Paio havia um dia de cismar em não morrer sem ver um crucifixo na “sua” capelinha. Quando, por ocasião das festas do ano de 2005, deparou com um belo crucifixo à direita da ara não conteve as lágrimas de felicidade. Ao tomar conhecimento de que havia sido o seu querido e estimado amigo padre Zé a ofertar tal peça, procurou-o com o intuito de ajustar contas, cuidando que quaisquer 200 ou 250€ seriam suficientes para resgatar a propriedade daquele crucifixo. Quase desfaleceu quando soube o quanto havia custado tão bela peça mas não baixou os braços e prometeu ao Sr. Padre que havia de acertar contas com ele nem que tivesse que andar a pedir pelo lugar ou pela freguesia. Assim fez e em pouco tempo conseguiu a verba suficiente para reclamar a propriedade do crucifixo para a capela de S. Paio, lá no lugar de Moreiró.

     
Outra manifestação religiosa ocorre a 15 de Janeiro: festa de Santo Amaro. Este santo, que arrasta milhares de devotos em cumprimento de promessas e graças obtidas, é advogado das doenças ósseas e da barriga e consegue concentrar um maior número de fiéis que o orago da freguesia. Discípulo e contemporâneo de S. Bento, consegue transformar em feriado um dia útil de trabalho, tão grande é a devoção que milhares de fiéis lhe têm.  
     O pai de Amaro, o romano cristão Equizio, ofereceu-o, ainda criança, a Deus e confiou-o a um mosteiro fundado e administrado por S. Bento na região de Sublaco, perto de Roma. As virtudes deste monge rapidamente se revelaram aos olhos do seu mestre, que lhe formulou o convite para partilhar o governo do regulamento dos demais monges. A humildade e vontade de servir impeliram-no a recusar tal convite. A este santo se atribui ao primeiro milagre aquele em que S. Bento, alertado por uma visão divina, pede a Amaro para ir em socorro de Plácido que se afogava num dos lagos de Sublaco. Amaro, com o único pensamento de obediência, correu para o lago e, tal como Jesus, andou sobre as águas, resgatando destas o seu amigo Plácido, regressando ambos a terra firme ilesos. Também consta que os regimes férreos de ordem e disciplina impostos por S. Bento não seriam bem aceitos pelos outros monges, em particular pelo monge Florêncio. Este ambiente não era o apropriado para S. Bento que decidiu abandonar o mosteiro, por não ver reunidas as condições para levar a efeito a divina missão a que se tinha proposto. Após a sua saída e em manifesta atitude de alegria e regozijo o monge Plácido sofreu uma queda que lhe foi fatal. Amaro, correu ao encontro de S. Bento a quem, entusiasticamente, contou a novidade e pediu para regressar. S. Bento ficou duplamente triste pela notícia da morte do seu colega Plácido e pela satisfação com que esta lhe era comunicada. S. Bento prosseguiu o seu caminho impondo penitência a Amaro. Pouco tempo depois, Amaro é chamado por S. Bento para assumir o priorado da nova abadia em construção no Monte Cassino, que se eternizou como verdadeiro templo de virtude cristã e sábia erudição. Mais tarde, em 533, S. Bento ordena a Amaro e a outros que partam a espalhar os ensinamentos e virtudes da Ordem Beneditina. Amaro viria a morrer em Glanfenil, primeiro mosteiro beneditino em França. Desde a sua partida do Monte Cassino até à sua morte no mosteiro por si fundado, Amaro foi protagonista de imensos milagres, granjeando fama de santo milagreiro. Os devotos coxos, estropiados e outros enfermos que, por acção intersecção milagrosa, beneficiavam das suas graças, deixavam no último reduto deste Santo as muletas de que já não necessitavam e a que eram chamadas de “muletas de Sto. Amaro”.
     Mais recente é a reposição do “cortejo do Menino” ou de “oferendas”, que consiste em cada lugar da freguesia organizar um cortejo, constituído por carro alegórico, figurantes e música, que nos primeiros dias de Janeiro se desloca para a igreja paroquial, onde todos os cortejos se encontram e entregam ao Sr. Padre o resultado do peditório levado a cabo, porta a porta, nos respectivos lugares para angariação de fundos para o Centro Social e Paroquial de Labruge. Também alguns lugares levam “segredos” – cestos com os mais variados géneros alimentícios e petiscos – que depois de leiloados a receita reverte igualmente para o Centro Social. Resta acrescentar que os motivos destes cortejos, diferentes a cada ano, são, dentro do possível, mantidos em segredo até ao dia da sua realização, gerando uma rivalidade e competitividade saudável e profícua à imaginação de cada um, buscando sempre melhor que o último. Este cortejo de oferendas costuma ocorrer na primeira quinzena de Janeiro.
     Labruge, devota de N. Sraª de Fátima, dedica todo o mês de Maio a Maria, oferendo-lhe todas as noites, pelas 21 horas, a novena ou reza do terço. Em finais do mês de Maio, em data marcada pelo Sr. Padre, sai a procissão de velas, para o que acorre um elevado número de pessoas que, com as mais variadas flores e verdes, elaboram com elevado brio uma passadeira em todo o passal circundante ao conjunto da Igreja e do cemitério, sobre a qual passará a procissão com a imagem de N. Sra. de Fátima. É tocante a devoção mostrada pelas gentes de Labruge a Maria, mãe de Jesus, organizando a paróquia, anualmente, um passeio ao santuário de Fátima ao qual acorrem muitas pessoas que aproveitam este evento para cumprir promessas ou simplesmente para visitarem e rezarem no altar do mundo.

     Em Labruge, como na maior parte das localidades portuguesas, as pessoas mais idosas fazem uso de derivações fonéticas e gramaticais de alguns termos de difícil pronunciação, resultado da iliteracia*, que personalizam as gentes dessas mesmas localidades. Como curiosidade aqui ficam alguns desses termos e respectivas correspondências, que os mais “eruditos” das cidades, só porque vêm à aldeia e por tal se acharem superiores, usam como meio de chacota da simplicidade dos aldeãos: Abroba – abóbora; Alcoloso – alcoólico; Clipe – eucalipto; Meiação – meação; Sastifeito – satisfeito; ir à Venda – ir à mercearia; Munho – moinho; Cináiro – dicionário; Gomitar – vomitar; etc…
     Também merece especial relevo algumas alterações fonéticas tais como a substituição das conjunções ou e e por ó e a, respectivamente, bem como a aposição do t antes do dígrafo ch ou do x (tchá, txaile, catchopo, etc…)
     Também como curiosidade aqui ficam algumas das tradições e usos a que a população de Labruge recorre no intuito de melhorar e salvaguardar os seus proveitos na execução das mais elementares tarefas:
  • Sempre que alguém leva ovos galados para chocar e tem que transpor algum veio de água corrente, polvilha-os com migas de broa e sal para não gorarem;

  • Ao deixarem os ovos para a galinha os chocar, proferem sempre a ladainha: “Em louvor de S. Salvador, saia tudo pitas e um só galador.”
* m.q. iletracia (faculdade do iletrado, analfabeto)
  • O lavrador ao lançar as sementes à terra, faz o sinal da cruz dizendo: “Deus te ponha a virtude que, por mim, fiz o que pude.”;

  • Quando a mulher junta a massa para fazer o pão, reza a seguinte oração: “S. Crescente te acrescente, /S. Liberto te levede, /S. João faça bom pão, /Em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo, /Amén. De seguida ao fechar o forno faz com a pá ou com a mão três cruzes no ar. Não conta o pão que vai ao forno nem corta à faca o primeiro pão da fornada, sob o risco do restante pão ressuar.
     No que toca ao folclore local, é de referir que as gentes desta freguesia da beira-mar chamavam às das freguesias do interior os “da ramalheda” e estes aos primeiros “os marinhôtos”, havendo entre ambos um certo antagonismo que foi desaparecendo com o progresso. Os “marinhôtos” usavam no seu trajar um calção curto ou um vestido de tecido feito por eles a que se dava o nome de serguilha. Aquando das festividades, enfeitavam os santos com fitas e relógios de algibeira bem como brincos e cordões com grandes corações em ouro e em andores ou em charolas, também ornadas com fitas e lenços, seguiam em procissão até à igreja.

Fazer a história de uma localidade ou região implica recuperar memórias disseminadas por um conjunto de vestígios onde o espaço e as sociedades se inscrevem.
Face à diversidade dos temas possíveis de abordar, em consonância com a trajectória da vida das comunidades, a investigação é complexa, exigindo que se percorram arquivos, bibliotecas, museus, etc., ou seja todos os locais onde a memória da presença humana se encontra preservada.
Antes mesmo de se procurar um documento de arquivo, e a fim de se obter uma visão de conjunto e se gizarem os contornos do estudo que se pretende fazer, importa conhecer, desde logo, a bibliografia já publicada sobre a localidade ou região, recorrendo, em primeira instância, a obras de índole geral, tais como enciclopédias e dicionários.

                                                                        














































































































            
José Manuel Diogo Salgueiro            Padre José Domingues
    Presidente da Junta de Freguesia             Pároco de S. Tiago de Labruge





                               João Rodrigues
     Este trabalho de compilação, investigação e de opinião elaborado por João Rodrigues, presidente da Associação Cultural e Recreativa de Labruge, é propriedade desta e oferecida à Paróquia de S. Tiago de Labruge, para que a receita a advir da sua publicação e venda reverta na íntegra a favor do Centro Social e Paroquial de Labruge.
                                                           Labruge, 26 de Setembro de 2003

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